A psicanálise e o esvaziar-se de si

setembro 13, 2011 às 5:31 pm | Publicado em Artigos | 2 Comentários
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“A palavra foi dada ao homem para encobrir seu pensamento”, Stendhal

Por André Toso

Entre as inúmeras contribuições da psicanálise para a humanidade, talvez a que mais se destaque é a abertura da possibilidade de escutar o outro. A figura do analista representa um esvaziar-se de si mesmo e abrir-se para as inquietações, conflitos e, fundamentalmente, para o discurso do paciente. Para tanto, é necessário que o analista deixe do lado de fora de seu consultório todas as suas opiniões morais e escute as demandas do paciente sem julgamentos ou concepções pré-definidas. É ouvir o outro em sua inteireza, de forma depurada e sem misturar-se com o que é falado. É ouvir por ouvir, sem a ansiedade de uma resposta que se enquadre em um diálogo. É ouvir sem sequer pensar em construir um diálogo racional. O diálogo se constrói por si mesmo, nas entrelinhas, sensações e naturalidades da fala do paciente. É essa fala do paciente que leva à resposta do analista, como num eco. Não se trata de um diálogo construído: trata-se de um diálogo que simplesmente nasce em si mesmo.

Por isso mesmo, o psicanalista inglês Donald Woods Winnicott (1896-1971) diz que a sessão psicanalítica é um momento sagrado. Sagrado, pois consiste em uma tentativa de encontrar a verdade que não está nas palavras e sim na essência do que é cada ser humano. A verdade que não pertence nem ao analista nem ao paciente. A verdade que pertence à própria experiência humana. Uma verdade intangível, que se estabelece diante da singularidade de cada um e escapa a teorias ou enquadres. Uma verdade que transcende – própria da experiência de cada paciente. Uma verdade que nunca é totalmente revelada, mas pode ao menos ser parcialmente iluminada.

Uma boa análise objetiva libertar o paciente de suas próprias amarras fantasiosas e das amarras do meio social em que ele vive. É libertar o paciente do discurso do Outro – como diria Jacques Lacan (1901-1981) –, do discurso dos pais e mães. Mas esses pais e mães ultrapassam em muito a barreira familiar e não são apenas os biológicos. A psicanálise busca libertar o paciente do discurso do poder, das instituições, tradições, imposições e até mesmo das leis que regem a vida social. É libertar o paciente do discurso inventado pela própria história humana. É desintoxicar a mente do excesso de discurso, do excesso de palavras, do excesso de regras estabelecidas que se estendem ao longo da trajetória humana. O papel da psicanálise é reinventar a experiência humana contestando tudo que até então foi imposto ao sujeito pelo discurso externo. É limpar os signos e símbolos em excesso que sufocam o humano e lhe tiram seu caráter misterioso, subjetivo, essencial e quase místico. A psicanálise trabalha com a palavra narrada para desgastá-la a ponto de ela perder sua importância central e restar apenas a essência. A palavra – que muitas vezes cega – é substituída pelo sentir.

É esse sentir que levará o paciente a criar sua própria ética. Uma ética que não responde a instituições ou regras estabelecidas, mas que ecoa dentro de sua essência. Uma ética que dispensa a obrigação e o apalavrado – que é essência em si mesma. O paciente, ao estar diante de um analista que se esvazia para contê-lo, aprende também a esvaziar-se para conter todos que o cercam na comunidade. Aprende a olhar o outro sem barreiras morais, respeitando as singularidades, experiências e vivências de cada um. Um ser humano analisado aprende a respeitar o espaço de si e do outro, separando o seu querer e poder do querer e poder do outro. Ele aprende a delimitar-se na relação com o outro, respeitando-o e sabendo instintivamente que para construir-se é preciso do outro, mas que esse outro também está ali para construir-se com ele. Esse paciente aprende a olhar a si e ao outro respeitando o mistério da experiência humana. Respeita-se a si, respeita-se o outro e respeita o próprio mistério do existir humano. É um ser que consegue esvaziar-se de si para acolher o outro. É alguém preparado a conviver com unidade e em comunidade.

Dimensões do silêncio

janeiro 14, 2011 às 5:38 pm | Publicado em Artigos | Deixe um comentário
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O psicanalista Gilberto Safra

Por André Toso

Em conferência realizada em 2009, o psicanalista e pensador brasileiro Gilberto Safra falou sobre as dimensões do silêncio. Apenas o título da palestra já seria tema de reflexão e de curiosidade. Mas o conteúdo da fala de Safra impressiona. Seu pensamento, moderno e multidisciplinar, faz estudantes e psicanalistas pensarem além do óbvio e abandonarem a preguiça intelectual. E o mais interessante é que os tecnicismos ficam de lado e qualquer indivíduo que consiga interpretar um texto consegue usufruir da sabedoria deste pensador.

Utilizando a prática clínica do pediatra e psicanalista inglês Donald Woods Winnicott (1896 – 1971) como base, Safra afirma que o silêncio deve ser tratado como um dos temas fundamentais de nosso tempo e, por consequência, da psicanálise. Para Winnicott, o estado em que o ser humano pode recomeçar e se entender é quando ele goza da solitude. E essa solitude, por sua vez, só pode ser alcançada em um momento em que o paciente se encontra totalmente dependente e, portanto, não se sente como um ser. “É aí que o individuo inicia a experiência de si mesmo, como só”, diz Safra. É neste momento que ocorre o fenômeno da comunicação silenciosa.

No momento da análise, inúmeros pacientes, ao se depararem com o silêncio, não vivem uma experiência de presença e sim de agonia diante do impensável, do indizível. Pelo fato de o sofrimento do analisando sempre expressar algo sobre o mal-estar contemporâneo, tem-se aí a importância que o silêncio tem em nossos tempos, e como é difícil encará-lo. Por isso, o analista deve ser silêncio para acolher a singularidade do paciente. Mas ele deve ser também objeto interventor, pois se for só silêncio convidará o analisando a cair em um precipício ao qual ele não está preparado.

Assim como o bebê, o paciente necessita de um ser humano que lhe seja objeto e presença. A presença é que a mãe possibilite o bebê ser no estado de quietude. A beleza da frase é óbvia. Apenas com o olhar, com a presença física, sem palavras, já que o bebê não tem ferramentas de comunicação, é que a mãe consegue fornecer ao seu filho o amor e o conforto que ele necessita. Na clínica esse também deve ser o papel do analista: criar um vínculo tão forte com seu paciente que o silêncio, o estar juntos em uma sala sem precisar de signos, transforme-se em presença.

Para Safra, a experiência de encontro do objeto possibilita a ação no mundo, e é isso que favorece a abertura para a realidade. Já a experiência de presença possibilita o estabelecimento do estado de quietude e o encontro do silêncio na interioridade do si mesmo. O silêncio na interioridade do si mesmo oferta morada ao núcleo do self que jamais se comunica (a parte de todos nós que não contém palavras, que é só instinto, pulsão).

Para Safra, e isso é muito bonito, o silêncio de si é paradoxalmente a presença silenciosa do outro. O analisando, portanto, precisa do objeto para mover-se no mundo e do silêncio para encontrar-se com seu mundo interno, que é intraduzível e indizível. O analisando, mesmo sem saber, busca esse indizível, essa não representação simbólica. Para explicar isso, Safra afirma que no mundo contemporâneo, onde tudo é significado, onde os signos formam toda a realidade, as pessoas buscam um silêncio, que pode estar em um desejo de morte ou em um desejo de ver o mundo desnudado, sem significado, não-nomeado.

O mundo, cada vez mais hiper-estimulado e funcional, tem cada vez menos a presença do silêncio. O homem, assim, atordoa-se em uma maré de informações e necessita de um silêncio que seja hospitalidade e não indiferença. Safra exemplifica com um analisando que vibrou ao ver uma cratera no asfalto de uma grande avenida da cidade. “Se tem uma cratera nessa avenida, o mundo tem esperança”, disse o paciente. Ele celebrava a visão da terra em meio a um mundo repleto de medidas, de coisas criadas pelo homem e não naturais. O analista, assim, deve conhecer a importância da palavra e também da não-palavra. Deve estar ciente da importância do silêncio do encontro com a presença do outro, com a terra originária (como no exemplo da cratera) para além da funcionalidade. É isso que possibilita a experiência de descanso para o ser humano. Ver o mundo como ele é e não vestido de asfalto e de significados.

Safra diz que indivíduos aprisionados em lucidez medonha, não podem dormir e nem acordar, vivem em contínuo estado de agonia, que pode levá-los a uma organização defensiva de tipo psicótica. Muitas dessas pessoas sentem-se tão sós, que se sentem fora da experiência de pertencer à humanidade. Acolher o silêncio do paciente, sem excesso de interpretação, é a saída. É mostrar para aquele ser, cheio de medidas e mais lúcido do que deveria, que o mundo é mistério e, por consequência, sua própria existência também é misteriosa.

Safra também diz que outras pessoas que também vivem uma lucidez medonha se organizam em um tipo de funcionamento niilista. Elas precisam continuamente atacar tudo aquilo que é social e isto se transforma em um estilo de vida, mas guardam em si a esperança de um encontro que as retire de um mundo organizado por artifícios. Elas buscam o silêncio.

Por tudo isso, para Safra, a posição diante do analisando deve ser mais ética do que técnica. O lugar ético do psicanalista demanda o enraizamento de si e da situação clínica no silêncio, que possibilite que o analista possa ser presença e objeto para o analisando. Especialmente para aqueles que foram capturados pela mentalidade hegemônica do mundo, na qual observamos a ênfase na funcionalidade, na hiper-realidade, no excesso de palavras vazias.

Em resumo, nesta conferência Safra nos fala sobre o silêncio como fundamento para gerar o encontro do paciente consigo mesmo e, por consequência, com o analista como presença e objeto. O analisando fala de suas experiências conscientes, o analista ao invés de interpretar tudo, tem um dever ético de respeitar o silêncio do paciente, pois é isso que ditará o ritmo da análise e mostrará ao analisando seu mundo interno, aquele que não possui palavras que o representem.

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