Lacan e o Estádio do Espelho

novembro 11, 2010 às 1:29 pm | Publicado em Notícias | 4 Comentários
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Na noite desta quarta-feira (10/11/2010), em continuidade ao ciclo de aulas sobre Lacan, a psicanalista Alice Beatriz Barreto Izique Bastos explicou o Estádio do Espelho. Segundo ela, essa teoria foi criada entre os anos de 1938 e 1940, quando Lacan concluiu que o olhar do outro é base da constituição do sujeito.  O bebê, portanto, projeta a imagem que o outro deu a ele – normalmente familiares ou pessoas próximas. Para a criação desse princípio, Lacan se subsidiou no médico e psicólogo francês Henri Wallon (1879-1962), para quem o reconhecimento da imagem da criança já representa a existência de um eu.

Se em Wallon o espelho possui um papel concreto, Lacan prefere seguir por um caminho mais subjetivo. Considera que a imagem especular do bebê tem um caráter ilusório e falso, contornado por desejos e ideais alheios. Mesmo assim, por ainda não conseguir se distinguir do outro, a criança assume a imagem como se fosse sua. O sujeito se torna uma unidade, porém virtual e alienada. Sobre isso, Lacan afirmou: “o corpo despedaçado encontra sua unidade na imagem do outro, que é a sua própria imagem antecipada”. Ocorre, então, uma confusão entre o eu e o outro, um conflito que constituíra uma etapa fundamental para a identificação primordial do sujeito.

O médico e psicólogo Henry Wallon

É exatamente por essa dimensão imaginária, por essa influência do olhar do outro, que a conquista da identidade se processa. É esse momento que define a organização estrutural do sujeito e toda sua subjetividade. A singularidade de cada um se constrói a partir desse olhar do outro, que formata o sujeito e o desloca de uma posição imaginária para uma posição simbólica. Em Lacan, essa passagem de representação de si também passa pela linguagem, decisiva para a concretização identificatória.

Complexo de Édipo

De acordo com Alice, a criança se identifica com o objeto do desejo da mãe, para em seguida perceber que essa mãe possui outro objeto de desejo, que seria o pai. Dessa forma, a criança entra no registro de castração e ocorre uma interdição de seu impulso: uma frustração. A renúncia ao objeto perdido resulta no fim da completude com a mãe. A castração simbólica separa a criança de uma relação dual e imaginária com o outro, tendo acesso ao registro simbólico da linguagem. É exatamente a resolução do Édipo que confere uma singularidade ao sujeito. Ao interiorizar a lei, o sujeito se insere na cultura e na linguagem.

Para ler sobre a primeira aula de Alice sobre Lacan CLIQUE AQUI

Para saber um pouco mais sobre Wallon CLIQUE AQUI

 

Um pouco de Lacan

novembro 4, 2010 às 3:39 pm | Publicado em Curso | 4 Comentários
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A psicóloga e psicanalista Alice Beatriz Barreto Izique Bastos iniciou esta semana na Sociedade Paulista de Psicanálise um ciclo de três aulas sobre Lacan. Com mestrado pela PUC e doutorado pela USP, Alice se especializou na teoria lacaniana e, inclusive, lançou um livro chamado “A Construção da Pessoa em Wallon e a Constituição do Sujeito em Lacan”, pela editora Vozes. Nesta primeira aula, a psicanalista falou um pouco da trajetória de Lacan, do manejo clínico do francês e derrubou alguns mitos construídos em torno de um pensador que se tornou um verdadeiro mito.

A influência de Lacan na cultura francesa, segundo Alice, ocorreu principalmente durante a década de 1970, uma fase em que o mundo borbulhava pela liberdade sexual, a explosão do consumo de drogas e as revoluções da contracultura. Diante disso, Lacan se relacionou com filósofos, artistas surrealistas, músicos e intelectuais. Essa troca influenciou sobremaneira sua visão psicanalítica. Por ser psiquiatra, psicanalista e filósofo, Lacan cumpriu um papel de amplo pensador.

Seu grande objetivo era um retorno e uma releitura da obra de Freud para trazer de novo seu pensamento para o centro das discussões da intelectualidade francesa. Após duas guerras mundiais, o pensamento freudiano perdera força e o psicanalista francês percebeu que era urgente revisitar a obra do mestre. Seu retorno a Freud, porém, ganhou o reforço de sua visão da linguística, da obra de Levi-Strauss e da filosofia de Heidegger.

Foi então que algumas de suas teorias causaram polêmica na International Psycoanalytical Association (IPA). Entre elas, o estádio do espelho, em que Lacan diz que a matriz constitutiva do ego é ilusória. Ao afirmar que o ego é uma instância ilusória e não o centro da personalidade psíquica do homem, Lacan se confrontou com a psicologia do ego norte-americana, que naquele período ganhava força. Além disso, em seu famoso Discurso de Roma, o psicanalista afirmou que o inconsciente está estruturado em uma linguagem própria de significantes. Lacan, em 1964, saiu da vice-presidência da IPA e fundou a Sociedade Francesa de Psicanálise (SFP).

Essa peregrinação por diferentes instituições marcaria a vida de Lacan. Sua proposta era de total rompimento com o establishment e com as regras rígidas da IPA. Para Lacan, o analista não se autoriza senão por ele mesmo. Segundo o pensador francês, o psicanalista deve ter o compromisso de saber quando está preparado. Com seu conceito de Sujeito Suposto Saber, o papel do analista e do analisando se equivalem, sem que o psicanalista precise ser um mestre que imponha os caminhos. O analisando é o único que pode se conhecer e mudar sua realidade.

Sua segunda excomunhão, como ele mesmo chamava, ocorreu em 1980, quando saiu da SFP e fundou a Escola da Causa Freudiana. Mais uma vez, Lacan se desligava das amarras institucionais e impunha como primordial seu próprio pensamento, independente de seguidores. Os lacanianos, que começavam a aparecer, não o fascinavam: Lacan continuava se dizendo freudiano, com a intenção de não criar um movimento de fiéis seguidores. Ele buscava a verdade em sua teoria, sem institucionalizá-la ou engessá-la. Para ele, a análise confronta o sujeito com a sua verdade, pela qual ele é constituído.

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