Doenças psiquiátricas roubam mais anos de vida do brasileiro

maio 10, 2011 às 5:49 pm | Publicado em Notícias | Deixe um comentário
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Fonte: Angela Pinho (Folha de S.Paulo)

Com mudanças no estilo de vida dos brasileiros, os transtornos psiquiátricos passaram a ocupar lugar de destaque entre os problemas de saúde pública do país.

De acordo com dados citados em uma série de estudos sobre o Brasil, publicada ontem no periódico médico “Lancet”, as doenças mentais são as responsáveis pela maior parte de anos de vida perdidos no país devido a doenças crônicas.

Essa metodologia calcula tanto a mortalidade causada pelas doenças como a incapacidade provocada por elas para trabalhar e realizar tarefas do dia a dia.

Segundo esse cálculo, problemas psiquiátricos foram responsáveis por 19% dos anos perdidos. Entre eles, em ordem, os maiores vilões foram depressão, psicoses e dependência de álcool.

Em segundo lugar, vieram as doenças cardiovasculares, responsáveis por 13% dos anos perdidos.

Outros dados do estudo mostram que de 18% a 30% dos brasileiros já apresentaram sintomas de depressão.

Na região metropolitana de São Paulo, uma pesquisa, com dados de 2004 a 2007, mostrou que a depressão atinge 10,4% dos adultos.

Não é possível dizer se o problema aumentou ou se o diagnóstico foi ampliado, diz Maria Inês Schmidt, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e uma das autoras do estudo.

Ela afirma também que são necessários mais estudos para saber de que forma o modo de vida nas cidades pode influenciar o aparecimento da depressão, além das causas bioquímicas.

No caso da dependência de álcool, no entanto, há uma relação com o estilo de vida, uma vez que pesquisas recentes do Ministério da Saúde apontam um aumento no consumo abusivo de bebidas.

IDADE AVANÇADA

O envelhecimento da população também contribui para o aparecimento de transtornos psiquiátricos.

De acordo com o estudo, a mortalidade por demência aumentou de 1,8 por 100 mil óbitos, em 1996, para 7 por 100 mil em 2007.

“O Brasil mudou com consumo de álcool, envelhecimento e obesidade e, com isso, temos novos problemas de saúde”, disse o ministro Alexandre Padilha (Saúde).

Em relação às doenças psiquiátricas, ele afirmou que a pasta irá expandir os Caps (centros de atenção psicossocial) e aumentar o número de leitos para internações de curto prazo.

A série de estudos do “Lancet” coloca como outros problemas emergentes de saúde diabetes, hipertensão e alguns tipos de câncer, como o de mama. Eles estão associados a mudanças no padrão alimentar, como o aumento do consumo de produtos ricos em sódio.

Por outro lado, a mortalidade por doenças respiratórias caiu, principalmente devido à redução do número de fumantes.

Maria Rita Kelh e a depressão

fevereiro 16, 2011 às 4:11 pm | Publicado em Artigos | 12 Comentários
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Texto retirado no site da psicanalista Maria Rita Kelh

A psicanalista Maria Rita Kelh

A depressão é uma forma muito particular e avassaladora daquilo que corriqueiramente chamamos a dor de viver. Juntamente com a angústia e a dor propriamente dita, é uma constelação de afetos tão familiar que, como escreve Daniel Delouia, dificilmente conseguimos classificá-la entre os quadros clínicos da psicopatologia. À dor do tempo que corre arrastando consigo tudo o que o homem constrói, ao desamparo diante da voragem da vida que conduz à morte – que para o homem moderno representa o fim de tudo – a  depressão contrapõe um outro tempo, já morto: um “tempo que não passa”, na expressão de J. Pontalis.

O psiquismo, acontecimento que acompanha toda a vida humana sem se localizar em nenhum lugar do corpo vivo, é o que se ergue contra um fundo vazio que poderíamos chamar, metaforicamente, de um núcleo de depressão. O núcleo de nada onde o sujeito tenta instalar, fantasmaticamente, o objeto perdido – objeto que, paradoxalmente, nunca existiu.

A rigor, a vida não faz sentido e nossa passagem por aqui não tem nenhuma importância. A rigor, o eu que nos sustenta é uma construção fictícia, depende da memória e também do olhar do outro para se reconhecer como uma unidade estável ao longo do tempo. A rigor, ninguém se importa tanto com nossas eventuais desgraças a ponto de conseguir nos salvar delas. Contra este pano de fundo de nonsense, solidão e desamparo, o psiquismo se constitui em um trabalho permanente de estabelecimento de laços – “destinos pulsionais”, como se diz em psicanálise – que sustentam o sujeito perante o outro e diante de si mesmo.

Freudianamente falando, a subjetividade é um canteiro de ilusões. Amamos: a vida, os outros, e sobretudo a nós mesmos. Estamos condenados a amar, pois com esta multiplicidade de laços libidinais tecemos uma rede de sentido para a existência. As diversas modalidades de ilusões amorosas, edipianas ou não, são responsáveis pela confiança imaginária que depositamos no destino, na importância que temos para os outros, no significado de nossos atos corriqueiros. Não precisamos pensar nisso o tempo todo; é preciso estar inconsciente de uma ilusão para que ela nos sustente.

A depressão é o rompimento desta rede de sentido e amparo: momento em que o psiquismo falha em sua atividade ilusionista e deixa entrever o vazio que nos cerca, ou o vazio que o trabalho psíquico tenta cercar. É o momento de um enfrentamento insuportável com a verdade. Algumas pessoas conseguem evitá-lo a vida toda. Outras passam por ele em circunstâncias traumáticas e saem do outro lado. Mas há os que não conhecem outro modo de existir; são órfãos da proteção imaginária do “amor”, trapezistas que oscilam no ar sem nenhuma rede protetora embaixo deles. “A depressão é uma imperfeição do amor”, escreve Andrew Solomon, autor de “O demônio do meio-dia”, vasto tratado sobre a depressão publicado nos Estados Unidos e traduzido no Brasil no final de 2002. Faz sentido, se considerarmos o sentido mais amplo da palavra amor.

Durante cinco anos, Solomon dedicou-se a pesquisar a depressão: causas e efeitos, tratamentos, hipóteses bioquímicas, estatísticas. Recolheu histórias de vida de dezenas de pessoas que passaram por crises depressivas – “nunca escrevi sobre um assunto a respeito do qual tantos tivessem tanto a dizer”. A estas, acrescentou sua própria história – o trabalho no livro foi uma forma de reação ao longo período em que ele próprio passou por sérias crises depressivas. Um período em que, nas palavras do autor, “cada segundo de vida me feria”.

A julgar pelos números recolhidos por Solomon em relatórios da divisão de saúde mental da Organização Mundial de Saúde – o DSM-IV – esta ferida acomete a um número cada vez maior de pessoas no mundo, e particularmente nos Estados Unidos. 3% da população norte americana sofre de depressão crônica – cerca de 19 milhões de pessoas, das quais 2 milhões são crianças. A depressão é a principal causa de incapacitação em pessoas acima de cinco anos de idade. 15% das pessoas deprimidas cometerão suicídio. Os suicídios entre jovens e crianças de 10 a 14 anos aumentaram 120% entre 1980 e 1990. No ano de 1995, mais jovens norte-americanos morreram por suicídio do que de da soma de câncer, Aids, pneumonia, derrame, doenças congênitas e doenças cardíacas.

Esta forma de mal estar tende a aumentar, na proporção direta da oferta de tratamentos medicamentosos: há vinte anos, 1,5% da população dos Estados Unidos sofria de depressões que exigiam tratamento. Hoje este número subiu para 5%. Sincero adepto dos tratamentos farmacológicos, que segundo ele salvaram sua vida, Andrew Solomon acaba por se perguntar se a doença cresce com o desenvolvimento da medicina ou se a indústria farmacêutica produz as doenças para os remédios que desenvolve, do mesmo modo que outros ramos industriais criam mercados para seus produtos.

Insight sem inconsciente?

A contribuição das terapias medicamentosas no tratamento das doenças mentais é inegável, e o analista, assim como outros “terapeutas da fala” no dizer de Solomon, não pode dispensá-la. “O Prozac não deveria tornar o insight dispensável,”, diz Robert Klitzman, da Universidade de Colúmbia, citado pelo autor. “Deveria torná-lo possível”.

Mas qual o insight possível, capaz de produzir efeitos sobre a subjetividade, em uma cultura onde as práticas de linguagem se impõem fortemente de modo a apagar o sujeito do inconsciente? As histórias de pacientes depressivos enumeradas por Andrew Solomon centram-se ao redor da perspectiva única do vitimismo. As pessoas se deprimem porque não suportam o que foi feito a elas. Acidentes, perdas traumáticas, abandonos, violência, abuso sexual na infância; é de fora para dentro que a vida psíquica se impõe àqueles que sofrem de mal estar.

É óbvio que a rede de proteção do psiquismo pode ser rompida pelas irrupções traumáticas do real; mas as “desgraças da vida” recaem sempre sobre um sujeito, incidem sobre uma posição desejante e são rearticuladas pelas formações do inconsciente, que são formações da linguagem. Do ponto de vista do vitimismo, a cura da depressão consiste na eliminação de todo traço de “má notícia” que advenha do inconsciente. A psiquiatria e a indústria farmacêutica aliam-se a este ponto de vista. “Assistimos a um conluio curioso entre a descrição psiquiátrica e a própria queixa do deprimido”, escreve Delouia. “A ignorância a respeito do psíquico “une o fenômeno depressivo com a parafernália nosográfica da psiquiatria”.

O autor não deixa de ser crítico em relação a esta perspectiva. “Nós patologizamos o curável. Quando existir uma droga contra a violência, ela será encarada como uma doença”. Também é crítico em relação ao ideal de remoção química de toda a dor de existir. No entanto, a ingenuidade a respeito da realidade psíquica prevalece até mesmo em relação à sua própria crise depressiva. Filho de uma mulher ativa e absorvente, que mais tarde ele próprio pode perceber como depressiva, Andrew Solomon participou, junto com o pai e o irmão, do suicídio assistido da mãe, vítima de câncer no ovário aos 58 anos. Depois dessa morte, dramática e intensamente estetizada, a fantasia de suicídio ocorre aos outros membros da família. No ano seguinte, Solomon inicia uma análise com uma mulher que lhe lembra a mãe, e propõe a ela um pacto incondicional: não abandonarão o tratamento até o “fim”, sob nenhuma condição. Mas alguns anos depois,a analista anuncia ao dedicado analisando que vai deixar o trabalho. Aposentadoria por tempo de serviço…

No tempo de análise que lhe resta, Andrew Solomon não entende por que vai entrando em depressão cada vez mais grave, até que a própria analista concorda em que ele busque auxílio psiquiátrico. A análise “termina” pouco depois, e ele atravessa um ciclo de depressões gravíssimas. A inabilidade da analista de Solomon quanto ao manejo da transferência diante de um quadro de luto melancólico salta aos olhos do leitor familiarizado com a psicanálise. Não é sem razão que ele escreve, anos mais tarde, que a psicanálise seja “hábil para explicar, mas não eficiente para mudar” os quadros depressivos.

A julgar pelo relato de Solomon, seu tratamento psicanalítico foi baseado na reconstituição da vida infantil, em busca de um causalidade psíquica que, de fato, pode ter valor explicativo mas não produz nenhuma intervenção sobre o psiquismo vivo e ativo no sujeito adulto. Pierre Fédida, em seu livro sobre a depressão, adverte sobre os riscos de se buscar a evocação de um “acontecimento real que se supõe empiricamente traumático: a vivência infantil – essencialmente inatual na fala associativa – recebe assim uma positividade patogênica, na forma de uma atualidade passada”. O “infantil” que interessa à psicanálise não é o do passado, rememorado pelo eu, mas o que se manifesta ao vivo na transferência, nas demandas dirigidas ao analista. Como a analista de Solomon não se deu conta da relação entre a proposta de uma análise incondicional feita por ele, o amor pela mãe e o pacto de morte que o uniu a ela? Como não se deu conta da relação entre a crise depressiva de seu analisante e o anúncio burocrático de sua “aposentadoria”?

O livro de Solomon não oferece nenhuma contribuição decisiva para o conhecimento da depressão, mas lança uma luz importante sobre as relações entre a emergência epidêmica dessa forma de mal estar e os modos de subjetivação predominantes na cultura norte-americana. Em uma sociedade onde as formações discursivas apagam o sujeito do inconsciente, em que a felicidade e o sucesso são imperativos superegóicos, a depressão emerge – como a histeria na sociedade vitoriana – como sintoma do mal estar produzido e oculto pelos laços sociais. O vazio depressivo, que em muitas circunstâncias pode ser compensado pelo trabalho psíquico, é agravado em função do empobrecimento da subjetividade, característico das sociedades consumistas e altamente competitivas. A “vida sem sentido” de que se queixam os depressivos só pode ser compensada pela riqueza do trabalho subjetivo, ao preço de que o sujeito suporte, amparado simbolicamente pelo analista, seu mal estar. A eliminação farmacológica de todas as formas de mal estar produz também, paradoxalmente, o apagamento dos recursos de que dispomos para dar sentido à vida.

Entrevista com o psicanalista francês Roland Chemama

fevereiro 2, 2011 às 3:06 pm | Publicado em Entrevista | Deixe um comentário
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Um dos livros do psicanalista francês

Fonte: RedePsi

A psicanálise não é um tratamento como tomar um remédio. Ela deve abrir portas, expor outras dimensões da verdade. A tese emerge do livro Elementos lacanianos para uma psicanálise no cotidiano (CMC Editora, 347 páginas, R$ 45,00), que o francês Roland Chemama esteve autografando na capital gaúcha. Na entrevista a seguir, concedida a Robson de Freitas Pereira, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (Appoa), Chemama comenta o exercício da psicanálise na cena contemporânea. Fala de depressão, fetiche, mercantilização dos desejos e contesta a propalada idéia de morte da psicanálise: – O psicanalista representa ainda a possibilidade de uma outra relação com o mundo.

Cultura – No livro Elementos lacanianos para uma psicanálise no cotidiano o sr. discute a relação da clínica psicanalítica com a literatura e a história. É possível que a psicanálise possa se servir dessa relação sem perder sua eficácia clínica?

Roland Chemama – Sim. Na medida em que reconhecemos que o inconsciente é uma expressão da linguagem, fica clara a importância de seguir o modelo pelo qual os escritores trabalharam os grandes eixos da linguagem. Antes de me tornar psicanalista, eu tinha um interesse particular pela literatura, que não se caracterizou como algo exterior à minha orientação psicanalítica. Tentarei ser mais preciso: o poeta nos dá realmente a idéia do funcionamento polissêmico da linguagem. Para ele, uma palavra tem freqüentemente sentidos variados. Acostumar-se com isso aproxima o psicanalista do funcionamento do inconsciente. Para entender o que diz o paciente, temos que cuidar da dimensão polissêmica.

Cultura – Houve um tempo, porém, em que havia um preconceito em relação a isso. Ou seja, o psicanalista poderia se interessar pela poesia ou pela literatura, desde que as encarasse como um hobby. O psicanalista teria que ser, antes de mais nada, um técnico.

Chemama – É importante distinguir duas coisas que, para um psicanalista, são bem diferentes: o saber e a verdade. O mundo contemporâneo nos faz acreditar que o mais importante é a acumulação de saberes. Esse acúmulo, no entanto, faz com que o sujeito ignore a questão de seu desejo. Ao mesmo tempo, a questão da verdade se coloca mais na literatura e na filosofia. Não digo que a literatura seja suficiente para dar ao sujeito a resolução de seus problemas, mas permite pensar alguma coisa que não se reduz ao saber positivo, técnico. Precisamente, a psicanálise não busca a eficácia técnica. A psicanálise não é um tratamento semelhante a tomar ou prescrever um medicamento. Ela deve abrir alguma coisa, expor uma dimensão de verdade e não ser o objeto de um saber.

Cultura – O sr. vem ao Brasil no momento em que elegemos um novo presidente. Em suas primeiras declarações, ele afirmou que “a esperança venceu o medo”. Isso aponta para uma das grandes questões atuais: a insegurança das pessoas em relação ao que poderíamos situar como uma falta simbólica na organização subjetiva e social. O sr. concorda?

Chemama– A transição se faz de tal modo que desmente a idéia de uma falta na relação com a lei, com o simbólico. Quando o presidente atual diz o que ele diz sobre o novo presidente, ele legitima fortemente a transição, pois sentimos que remete a uma posição estabelecida na própria lei. A segunda coisa que eu poderia responder é que, se realmente podemos reconhecer rupturas fortes do laço social nas atitudes de certas camadas sociais em relação a outras, isso não se constitui, atualmente, em um fenômeno particular do Brasil. A questão é muito mais grave, é um problema para o mundo inteiro. Os homens atualmente crêem que toda a relação pode ser pensada como uma relação com um objeto. Como a técnica permite intervir sobre o corpo humano como se ele fosse um objeto, é o homem mesmo que se torna um objeto. A partir disso, se vê que a condição de uma lei, quer dizer, o exercício de uma regulação simbólica, pode ser problemática em todos os países. O que se torna mais preocupante ainda.

Cultura – Neste sentido, será que não estaríamos estabelecendo uma forma de relação perversa com os objetos ou mesmo nas relações sociais?

Chemama – Acho que sim, pois na realidade não se trata de perversão de pessoas particulares. Não é o homem em particular que é perverso. É o sistema mesmo no qual ele está inserido. De que se trata quando falamos em perversão? De um lado, há principalmente essa relação com o objeto que deve fornecer um gozo, sendo o corpo um destes objetos ao qual se pode aceder facilmente. O importante para um sujeito é ele gozar o mais fácil e rapidamente possível. Mas, na minha concepção, também acho que nesses casos há uma outra coisa em jogo: o sujeito não é só um objeto oferecido ao gozo do outro ou um sujeito que goza do outro. Ele geralmente guarda uma referência à lei simbólica, para jogar com essa lei. É neste sentido que os psicanalistas falam de uma clivagem. Sei que esse conceito não faz parte da linguagem cotidiana, mas há conceitos dos quais os psicanalistas têm que se servir como parte do trabalho psicanalítico. A noção da clivagem vem de Freud. Fala do fetichista, dizendo que o objeto-fetiche pode representar uma perda, a idéia de um falo da mãe, na qual acredita a criança. O fetiche representa isso, mas, ao mesmo tempo, não é exatamente isso. Se o fetichista somente acreditasse que a mulher houvesse tido realmente um falo, seria um delírio. Então, no fetichismo há uma clivagem, uma divisão, duas coisas acontecendo simultaneamente: a recusa da castração da mulher e o reconhecimento da castração.

Cultura – Ainda que a psicanálise modifique a noção de patologia propriamente dita, quais as patologias que o sr. encontra com maior freqüência na clínica contemporaneamente?

Chemama – Poderia continuar falando sobre a perversão, sobre a situação do sujeito em relação aos modos de gozo atuais , sobre modos particulares de gozar como a toxicomania, como o alcoolismo, como a pornografia. Já que não encontra uma satisfação completa nestas situações particulares, ele termina por fazer um recolhimento em si mesmo, deixando de agir. Normalmente, um homem ou uma mulher podem agir a partir de algo que é transmitido pelas gerações anteriores, em particular pela
relação com a geração dos pais. Os psicanalistas notam que, para um sujeito expressar seu desejo, é necessário o reconhecimento de um pai real no desejo da mãe.Se essa dimensão não é possível, uma vez que freqüentemente há uma desvalorização do desejo masculino, como no tema do assédio sexual, isso pode se tornar problemático. Hoje essa percepção de um desejo masculino, com muita freqüência visto como ilegal produz efeitos sérios. Neste sentido, penso que a patologia é principalmente uma patologia depressiva. Mais do que uma patologia de sintomas no sentido clássico, como histeria ou neurose obsessiva, estamos diante da patologia da depressão como uma impossibilidade de agir, de desejar.

Cultura – Quais são as particularidades da depressão hoje?

Chemama – A depressão é uma patologia bem conhecida, não é só uma tristeza. É uma coisa que isola o sujeito, que o impede de contatos sociais. O que dá a identidade ao sujeito é o desejo. Assim, quando ele não deseja, perde sua identidade. Há o que os psicanalistas chamam de despersonalização: o sujeito não se reconhece. O que ele é, o que faz aqui ou lá, ele não sabe. Há pessoas que pegam um transporte, viajam a uma cidade qualquer e depois não sabem o que fazem lá.

Cultura – Aqui no Brasil, à parte haver um interesse geral pela psicanálise ela com freqüência tem sua morte decretada em função de grandes “concorrências”, como a psicofarmacologia ( ou neurobiologia) e a religiosidade.

Chemama – Não é a primeira vez que se fala do fim da psicanálise. Realmente, que um problema é a multiplicação excessiva de tratamentos, por exemplo, por medicamentos. O poder da técnica através dos medicamentos ou o poder de discursos que pretendem oferecer um sentido universal cada vez mais se constituem como uma sugestão, um poder estrangeiro ao sujeito. A psicanálise consegue ter um lugar porque o sujeito percebe que os discursos estrangeiros que o comandam não são suficientes. Uma prova disso, embora superficial, mas ainda assim uma prova, é a multiplicação dos filmes cujo personagem principal é um psicanalista, como se o psicanalista, atualmente, na percepção das pessoas, ainda pudesse representar a possibilidade de uma outra relação com o mundo, uma variação do ser, algo diferente. O psicanalista se mantém indispensável.

Atendimentos Psicoterápicos Sociais

agosto 6, 2010 às 12:01 pm | Publicado em Clínica Social | Deixe um comentário
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A Sociedade Paulista de Psicanálise abre as inscrições para Atendimentos Psicoterápicos Sociais em sua Clínica Social.

O atendimento é para pessoas que apresentem algum tipo de incomodo emocional ou distúrbio psíquico (depressão, angústia, raiva excessiva, explosões emocionais, pensamentos obsessivos, insegurança, ansiedade, etc.). Não haverá fila de espera aos interessados, apenas uma entrevista inicial de triagem. Os necessitados e interessados em serem atendidos a um baixíssimo custo, entrar em contato com: Hideko pelo telefone 11 5539-6799.

A Sociedade Paulista de Psicanálise fica na Rua Humberto I, 295 – Vila Mariana – São Paulo.

Estudo de Caso – Metanóia – O Homem em crise aos 40 anos!

maio 29, 2010 às 11:55 am | Publicado em Estudo de Caso | Deixe um comentário
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Metanóia – O Homem em crise aos 40 anos!
7 de junho de 2010 – das 19 às 21 horas

Inscrições abertas até 02/06/10 – Vagas Limitadas

Coordenação: Vera Lúcia Muller Ando

Apresentação: Fernando Savaglia


Neste debate, objetivamos identificar:

– O que é Metanóia?
– Andropausa ou crise psíquica/afetiva?
– A diferença da crise de meia idade entre homens e mulheres
– Projeção de anima e a neurose noogênica
– Metanóia e depressão
– A visão da psicologia analítica
– A visão da psicanálise
– A visão existencialista
– Em busca da completude

Investimento: R$ 15 para associados e 30,00 para não associados.

Público: Alunos, profissionais e interessados.

Inscrições:
antecipadas na secretaria com Hideko.
De 2ª a 5ª, das 14h30 às 20h30 ou sábados das 10h às 13,30h.

Local: Sociedade Paulista de Psicanálise – Rua Humberto I, 295 – Vila Mariana

Tel.: 5539-6799 – sppsic4@terra.com.br

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