Entrevista com o psicanalista francês Roland Chemama

fevereiro 2, 2011 às 3:06 pm | Publicado em Entrevista | Deixe um comentário
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Um dos livros do psicanalista francês

Fonte: RedePsi

A psicanálise não é um tratamento como tomar um remédio. Ela deve abrir portas, expor outras dimensões da verdade. A tese emerge do livro Elementos lacanianos para uma psicanálise no cotidiano (CMC Editora, 347 páginas, R$ 45,00), que o francês Roland Chemama esteve autografando na capital gaúcha. Na entrevista a seguir, concedida a Robson de Freitas Pereira, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (Appoa), Chemama comenta o exercício da psicanálise na cena contemporânea. Fala de depressão, fetiche, mercantilização dos desejos e contesta a propalada idéia de morte da psicanálise: – O psicanalista representa ainda a possibilidade de uma outra relação com o mundo.

Cultura – No livro Elementos lacanianos para uma psicanálise no cotidiano o sr. discute a relação da clínica psicanalítica com a literatura e a história. É possível que a psicanálise possa se servir dessa relação sem perder sua eficácia clínica?

Roland Chemama – Sim. Na medida em que reconhecemos que o inconsciente é uma expressão da linguagem, fica clara a importância de seguir o modelo pelo qual os escritores trabalharam os grandes eixos da linguagem. Antes de me tornar psicanalista, eu tinha um interesse particular pela literatura, que não se caracterizou como algo exterior à minha orientação psicanalítica. Tentarei ser mais preciso: o poeta nos dá realmente a idéia do funcionamento polissêmico da linguagem. Para ele, uma palavra tem freqüentemente sentidos variados. Acostumar-se com isso aproxima o psicanalista do funcionamento do inconsciente. Para entender o que diz o paciente, temos que cuidar da dimensão polissêmica.

Cultura – Houve um tempo, porém, em que havia um preconceito em relação a isso. Ou seja, o psicanalista poderia se interessar pela poesia ou pela literatura, desde que as encarasse como um hobby. O psicanalista teria que ser, antes de mais nada, um técnico.

Chemama – É importante distinguir duas coisas que, para um psicanalista, são bem diferentes: o saber e a verdade. O mundo contemporâneo nos faz acreditar que o mais importante é a acumulação de saberes. Esse acúmulo, no entanto, faz com que o sujeito ignore a questão de seu desejo. Ao mesmo tempo, a questão da verdade se coloca mais na literatura e na filosofia. Não digo que a literatura seja suficiente para dar ao sujeito a resolução de seus problemas, mas permite pensar alguma coisa que não se reduz ao saber positivo, técnico. Precisamente, a psicanálise não busca a eficácia técnica. A psicanálise não é um tratamento semelhante a tomar ou prescrever um medicamento. Ela deve abrir alguma coisa, expor uma dimensão de verdade e não ser o objeto de um saber.

Cultura – O sr. vem ao Brasil no momento em que elegemos um novo presidente. Em suas primeiras declarações, ele afirmou que “a esperança venceu o medo”. Isso aponta para uma das grandes questões atuais: a insegurança das pessoas em relação ao que poderíamos situar como uma falta simbólica na organização subjetiva e social. O sr. concorda?

Chemama– A transição se faz de tal modo que desmente a idéia de uma falta na relação com a lei, com o simbólico. Quando o presidente atual diz o que ele diz sobre o novo presidente, ele legitima fortemente a transição, pois sentimos que remete a uma posição estabelecida na própria lei. A segunda coisa que eu poderia responder é que, se realmente podemos reconhecer rupturas fortes do laço social nas atitudes de certas camadas sociais em relação a outras, isso não se constitui, atualmente, em um fenômeno particular do Brasil. A questão é muito mais grave, é um problema para o mundo inteiro. Os homens atualmente crêem que toda a relação pode ser pensada como uma relação com um objeto. Como a técnica permite intervir sobre o corpo humano como se ele fosse um objeto, é o homem mesmo que se torna um objeto. A partir disso, se vê que a condição de uma lei, quer dizer, o exercício de uma regulação simbólica, pode ser problemática em todos os países. O que se torna mais preocupante ainda.

Cultura – Neste sentido, será que não estaríamos estabelecendo uma forma de relação perversa com os objetos ou mesmo nas relações sociais?

Chemama – Acho que sim, pois na realidade não se trata de perversão de pessoas particulares. Não é o homem em particular que é perverso. É o sistema mesmo no qual ele está inserido. De que se trata quando falamos em perversão? De um lado, há principalmente essa relação com o objeto que deve fornecer um gozo, sendo o corpo um destes objetos ao qual se pode aceder facilmente. O importante para um sujeito é ele gozar o mais fácil e rapidamente possível. Mas, na minha concepção, também acho que nesses casos há uma outra coisa em jogo: o sujeito não é só um objeto oferecido ao gozo do outro ou um sujeito que goza do outro. Ele geralmente guarda uma referência à lei simbólica, para jogar com essa lei. É neste sentido que os psicanalistas falam de uma clivagem. Sei que esse conceito não faz parte da linguagem cotidiana, mas há conceitos dos quais os psicanalistas têm que se servir como parte do trabalho psicanalítico. A noção da clivagem vem de Freud. Fala do fetichista, dizendo que o objeto-fetiche pode representar uma perda, a idéia de um falo da mãe, na qual acredita a criança. O fetiche representa isso, mas, ao mesmo tempo, não é exatamente isso. Se o fetichista somente acreditasse que a mulher houvesse tido realmente um falo, seria um delírio. Então, no fetichismo há uma clivagem, uma divisão, duas coisas acontecendo simultaneamente: a recusa da castração da mulher e o reconhecimento da castração.

Cultura – Ainda que a psicanálise modifique a noção de patologia propriamente dita, quais as patologias que o sr. encontra com maior freqüência na clínica contemporaneamente?

Chemama – Poderia continuar falando sobre a perversão, sobre a situação do sujeito em relação aos modos de gozo atuais , sobre modos particulares de gozar como a toxicomania, como o alcoolismo, como a pornografia. Já que não encontra uma satisfação completa nestas situações particulares, ele termina por fazer um recolhimento em si mesmo, deixando de agir. Normalmente, um homem ou uma mulher podem agir a partir de algo que é transmitido pelas gerações anteriores, em particular pela
relação com a geração dos pais. Os psicanalistas notam que, para um sujeito expressar seu desejo, é necessário o reconhecimento de um pai real no desejo da mãe.Se essa dimensão não é possível, uma vez que freqüentemente há uma desvalorização do desejo masculino, como no tema do assédio sexual, isso pode se tornar problemático. Hoje essa percepção de um desejo masculino, com muita freqüência visto como ilegal produz efeitos sérios. Neste sentido, penso que a patologia é principalmente uma patologia depressiva. Mais do que uma patologia de sintomas no sentido clássico, como histeria ou neurose obsessiva, estamos diante da patologia da depressão como uma impossibilidade de agir, de desejar.

Cultura – Quais são as particularidades da depressão hoje?

Chemama – A depressão é uma patologia bem conhecida, não é só uma tristeza. É uma coisa que isola o sujeito, que o impede de contatos sociais. O que dá a identidade ao sujeito é o desejo. Assim, quando ele não deseja, perde sua identidade. Há o que os psicanalistas chamam de despersonalização: o sujeito não se reconhece. O que ele é, o que faz aqui ou lá, ele não sabe. Há pessoas que pegam um transporte, viajam a uma cidade qualquer e depois não sabem o que fazem lá.

Cultura – Aqui no Brasil, à parte haver um interesse geral pela psicanálise ela com freqüência tem sua morte decretada em função de grandes “concorrências”, como a psicofarmacologia ( ou neurobiologia) e a religiosidade.

Chemama – Não é a primeira vez que se fala do fim da psicanálise. Realmente, que um problema é a multiplicação excessiva de tratamentos, por exemplo, por medicamentos. O poder da técnica através dos medicamentos ou o poder de discursos que pretendem oferecer um sentido universal cada vez mais se constituem como uma sugestão, um poder estrangeiro ao sujeito. A psicanálise consegue ter um lugar porque o sujeito percebe que os discursos estrangeiros que o comandam não são suficientes. Uma prova disso, embora superficial, mas ainda assim uma prova, é a multiplicação dos filmes cujo personagem principal é um psicanalista, como se o psicanalista, atualmente, na percepção das pessoas, ainda pudesse representar a possibilidade de uma outra relação com o mundo, uma variação do ser, algo diferente. O psicanalista se mantém indispensável.

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