A psicanálise e o esvaziar-se de si

setembro 13, 2011 às 5:31 pm | Publicado em Artigos | 2 Comentários
Tags: , , , , , , , , ,

“A palavra foi dada ao homem para encobrir seu pensamento”, Stendhal

Por André Toso

Entre as inúmeras contribuições da psicanálise para a humanidade, talvez a que mais se destaque é a abertura da possibilidade de escutar o outro. A figura do analista representa um esvaziar-se de si mesmo e abrir-se para as inquietações, conflitos e, fundamentalmente, para o discurso do paciente. Para tanto, é necessário que o analista deixe do lado de fora de seu consultório todas as suas opiniões morais e escute as demandas do paciente sem julgamentos ou concepções pré-definidas. É ouvir o outro em sua inteireza, de forma depurada e sem misturar-se com o que é falado. É ouvir por ouvir, sem a ansiedade de uma resposta que se enquadre em um diálogo. É ouvir sem sequer pensar em construir um diálogo racional. O diálogo se constrói por si mesmo, nas entrelinhas, sensações e naturalidades da fala do paciente. É essa fala do paciente que leva à resposta do analista, como num eco. Não se trata de um diálogo construído: trata-se de um diálogo que simplesmente nasce em si mesmo.

Por isso mesmo, o psicanalista inglês Donald Woods Winnicott (1896-1971) diz que a sessão psicanalítica é um momento sagrado. Sagrado, pois consiste em uma tentativa de encontrar a verdade que não está nas palavras e sim na essência do que é cada ser humano. A verdade que não pertence nem ao analista nem ao paciente. A verdade que pertence à própria experiência humana. Uma verdade intangível, que se estabelece diante da singularidade de cada um e escapa a teorias ou enquadres. Uma verdade que transcende – própria da experiência de cada paciente. Uma verdade que nunca é totalmente revelada, mas pode ao menos ser parcialmente iluminada.

Uma boa análise objetiva libertar o paciente de suas próprias amarras fantasiosas e das amarras do meio social em que ele vive. É libertar o paciente do discurso do Outro – como diria Jacques Lacan (1901-1981) –, do discurso dos pais e mães. Mas esses pais e mães ultrapassam em muito a barreira familiar e não são apenas os biológicos. A psicanálise busca libertar o paciente do discurso do poder, das instituições, tradições, imposições e até mesmo das leis que regem a vida social. É libertar o paciente do discurso inventado pela própria história humana. É desintoxicar a mente do excesso de discurso, do excesso de palavras, do excesso de regras estabelecidas que se estendem ao longo da trajetória humana. O papel da psicanálise é reinventar a experiência humana contestando tudo que até então foi imposto ao sujeito pelo discurso externo. É limpar os signos e símbolos em excesso que sufocam o humano e lhe tiram seu caráter misterioso, subjetivo, essencial e quase místico. A psicanálise trabalha com a palavra narrada para desgastá-la a ponto de ela perder sua importância central e restar apenas a essência. A palavra – que muitas vezes cega – é substituída pelo sentir.

É esse sentir que levará o paciente a criar sua própria ética. Uma ética que não responde a instituições ou regras estabelecidas, mas que ecoa dentro de sua essência. Uma ética que dispensa a obrigação e o apalavrado – que é essência em si mesma. O paciente, ao estar diante de um analista que se esvazia para contê-lo, aprende também a esvaziar-se para conter todos que o cercam na comunidade. Aprende a olhar o outro sem barreiras morais, respeitando as singularidades, experiências e vivências de cada um. Um ser humano analisado aprende a respeitar o espaço de si e do outro, separando o seu querer e poder do querer e poder do outro. Ele aprende a delimitar-se na relação com o outro, respeitando-o e sabendo instintivamente que para construir-se é preciso do outro, mas que esse outro também está ali para construir-se com ele. Esse paciente aprende a olhar a si e ao outro respeitando o mistério da experiência humana. Respeita-se a si, respeita-se o outro e respeita o próprio mistério do existir humano. É um ser que consegue esvaziar-se de si para acolher o outro. É alguém preparado a conviver com unidade e em comunidade.

Anúncios

Patologias do desvalimento: o vazio do não ser

agosto 9, 2011 às 1:51 am | Publicado em Artigos | 2 Comentários
Tags: , , , , , ,

Autor: Olivan Liger

Colaboração: Clarisa Junqueira Coimbra

 Introdução:

Nessa primeira década do século XXI, ao lado de inquestionáveis avanços tecnológicos nas diversas áreas da saúde, a Psicanálise se defronta cada vez mais com um mal-estar cuja incidência nos consultórios aumenta a olhos vistos. Algo novo no seu campo de saber? Não. Porém, o que nos alerta é justamente o número de pacientes com queixa muito similar, e que muitas vezes tem sido diagnosticados com algum equívoco, baseados em critérios duvidosos de co-morbidade, conduzindo a tratamentos inadequados que resultam no abandono do tratamento pelos pacientes que não se sentem atendidos em sua demanda.

Não se trata de uma ocorrência inusitada, pois Freud, em 1926 já citava esse tipo de paciente portador de uma angustia automática e desamparo (Hilflosigkeit). A contemporaneidade e seus impactos contribuem para o surgimento de um número maior dessas pessoas, as quais pertencem a um grupo psicopatológico que denominamos de portadores de patologia do desvalimento, termo este, traduzido do espanhol (desvalimiento) pela editora Amorrortu, e que aparece na atualidade, principalmente nos diversos estudos da UCESUniversidad de Ciências Empresariales y Sociales de Buenos Aires, Argentina.

Os portadores dessa patologia são pacientes que apresentam uma desconexão com a realidade, em diversos níveis. Evidenciam no processo de tratamento psicanalítico um estado mental de desistência e completa desmotivação pela vida, não desejam nada e se acomodam no estado letárgico e monótono de um viver sem aspirações ou expectativas. Um quadro de depressão sem tristeza, neuroses traumáticas e tóxicas, transtornos alimentares ou abuso de substâncias, violência vincular e somatizações diversas. O que o singulariza e diferencia de qualquer outro diagnóstico é exatamente esse traço de um vazio afetivo e emocional como se desabitados de qualquer emoção ou afeto.

Desenvolvimento e conceituação:

Para situarmos a constituição do Sujeito, cabe-nos retomar a textos onde  diversos psicanalistas refletem sobre o desenvolvimento da sexualidade. Freud nos fala de um primeiro momento de vida onde a libido se concentra na região bucal e nas mucosas, estado narcísico por excelência, no qual o recém-nascido não reconhece o outro senão como uma extensão de si próprio.  Nessa fase da vida sob a prevalência do id, processo primário na busca da satisfação dos impulsos, imediata, irrefreável, do prazer a todo custo, aqui e agora. Para que este prazer seja satisfeito, o recém-nascido necessita ver atendidas suas demandas básicas de fome, sede, higiene e cuidados básicos, através dos quais se agregam os afetos- emoções e sentimentos – a contenção e o acolhimento da parte aquele que cuida.

Freud distingue dois tipos de consciência: a consciência oficial e secundaria relacionada ao trabalho interpretativo de tornar consciente o inconsciente e uma consciência anterior, que denominou de consciência originaria ou neuronal, anterior às marcas mnêmicas e as representações, capaz de captar a vitalidade pulsional como fundamento da subjetividade. Portanto, entende-se que a partir desse “sentir o afeto do outro”, ou seja, dessas impressões sensíveis, há um investimento na percepção desinvestida e indiferente na consciência neuronal. A partir dai cria-se a base para o surgimento da consciência secundaria, na qual se inscrevem as marcas mnêmicas.

Para que o Sujeito se constitua, essa consciência neuronal (biológica, das impressões corpóreas) precisa ser suficientemente investida, conter um registro que organiza o mundo sensível de forma diferente, base sobre a qual se dará o desenvolvimento do ego posteriormente.

Quando não há, ou o investimento do afeto é muito precário nessas primeiras semanas de vida, a percepção não investida irá impossibilitar um desenvolvimento saudável da consciência secundaria, ocasionando um enorme vazio afetivo que comprometerá de forma geral todas as etapas de desenvolvimento posteriores, resultando na inibição ou fragmentação do psiquismo. Analogamente, comparo esse fenômeno a uma atrofia dos membros superiores ou inferiores num recém-nascido e suas conseqüências posteriores no agir na vida.

Nesse vazio afetivo instala-se o desamparo, o temor de sucumbir e a identificação com a morte, resultando na angustia automática, somática, dada a falta de uma experiência que a mente não tem registro, fazendo prevalecer o princípio de inércia sobre o princípio de constância fundamental para a manutenção da saúde psíquica.

O princípio de inércia imposto pela pulsão de morte aparece na clínica sob a forma de apatia que faz com que o sujeito se torne insensível à dor e ao sofrimento com traços de caráter marcadamente narcísicos, uma vez que, sua constituição não alcançou o reconhecimento do outro. A pulsão de morte fará o seu trabalho, rompendo ligações entre pulsões, estancando partes da energia psíquica e assim construindo um universo de fragmentos impossibilitado de processar o mundo psíquico na forma do pensamento, como num texto cuja gramática impede a compreensão semântica.

Esse desvio para a estagnação ocorre antes da posição depressiva de Klein, portanto nos primórdios da posição esquizo-paranóide ou durante a fase de autismo normal citada por Mahler antes do período de “diferenciação”, comprometendo as sub-etapas de “separação” e “individuação”. Green criou o termo “mãe morta” para referir-se à mãe que embora presente fisicamente nos cuidados básicos de seu bebê, estava por alguma razão, afetivamente morta:

Uma imago que se constitui na psique da criança em conseqüência de uma depressão materna, transformando brutalmente o objeto vivo, fonte da vitalidade da criança, em figura distante, átona, quase inanimada, impregnando muito fortemente os investimentos de certos sujeitos que temos em análise e pesando sobre o destino de seu futuro libidinal, objetal e narcisista. A mãe morta é, portanto, ao contrario do que se poderia crer, uma mãe que permanece viva, mas que está, por assim dizer, morta psiquicamente aos olhos da pequena criança de quem ela cuida.

 Diferencio aqui a depressão com tristeza e a depressão sem tristeza. Na depressão com tristeza há a perda de um objeto introjetado, o sujeito se identifica com o morto, como no luto, enquanto na depressão sem tristeza, não houve perda do objeto porque este não existiu, impelindo o sujeito a se identificar com a morte, com o nada.

A este objeto frio, a “mãe morta”, Costa acrescenta:

Quando não existe empatia, a figura materna se inscreve na mente da criança como um interlocutor arbitrário que contraria a realidade, sendo ela precisamente uma representação dessa realidade que o objeto procura destituir de vida. Maldavsky denomina esse objeto de “déspota louco”, a cujo domínio absoluto o paciente sucumbe, tornando-se um ser desvitalizado. (p. 62)

  Segundo Evaristo de Carvalho (2008) (apud LIGER, 2010, p. 66):

Dor incomensurável, do nada, sem causa aparente, dor de existir, que se reporta a um vazio que clama em vão por uma palavra que possa simbolizá-la. Dor obscura, sem limites, cujo sentido está velado para aquele que sente. Dor, pesar e desinteresse são características de quem perdeu algo. Mas enquanto para alguns é possível o luto pelo reconhecimento de que o objeto da perda não mais existe, para outros parece que isso é impossível. Por não saberem exatamente o que perderam, caem no mundo obscuro e enigmático da melancolia.

 O seio bom (que nutre e que transmite afeto), aqui o nomeio de seio quente para estabelecer a diferença com o seio frio (que nutre, mas inexiste afetivamente), o qual é sentido pelo recém nascido e introjetado de tal forma a transmitir  e repetir em sua vida uma forma do que Green denominou de “núcleo frio que queima como um gelo” e que Costa infere como a expressão de “um amor gelado, efeito da perda de calor vital resultante de uma hemorragia libidinal”, que se apresenta na relação analítica no processo de transferência.

Zimerman complementa dizendo que diante do “congelamento” da mãe, o recém-nascido pode num primeiro instante protestar através de manhas, choros, gritos e sintomas somáticos, reagindo a aspereza da realidade. Se nada acontece, tende a assumir um estado de acomodação e de “apatia depressiva”. Se, por fim, de nada adiantar, o recém-nascido entra num estado de nada mais esperar do mundo exterior  que se expressa num estado de des-esperança, que será sua marca pela vida afora.

São pessoas que podem manifestar um estado apático ou como reação à apatia, um estado semelhante a mania, cumprem sua vida na constituição de uma família, na manutenção de bons cargos em corporações, contudo toda e qualquer expressão para o mundo exterior costuma ser desqualificada de afeto. Tendem a ser cordiais quando manifestam sua apatia ou agressivos e reativos quando tentam sair do seu estado apático. Muito frequentemente o portador de patologia do desvalimento mergulha na dependência química, na compulsão sexual ou nos transtornos alimentares, meios dos quais se serve na tentativa de preencher o vazio interno e não sucumbir ao terror que o ego sente de ser invadido. Devido a ausência de uma subjetividade constituída na significação afetiva, também encontramos toda sorte de sintomas somáticos em tais pacientes, como forma expressiva dessa ausência, desse vazio que ficou inscrito. Nada parecendo os motivar, vivem sem grandes aspirações e parecem desconectados de tudo a sua volta. No seu processo de vida, nos relacionamentos estabelecidos e em tudo relacionado a vínculos afetivos, há sempre a repetição do desamparo e do abandono.

 Manejo clínico:

 São pacientes de difícil acesso que demandam uma série de habilidades da parte do analista. Segundo Hornstein (2008):

Em seu trabalho com as patologias do desvalimento o psicanalista pode refugiar-se na técnica “clássica” ou pode por a prova sua singularidade e fazer suas opções dentro da diversidade atual da psicanálise. Adeus ao psicanalista “objetivo”, ao receptáculo que recebe as identificações projetivas sem juntar-lhes elementos próprios de sua realidade psíquica por temor a juntar algo de seu próprio repertório. E a neutralidade analítica? O analista é algo mais que o suporte de projeções e de afetos mobilizados pela regressão do paciente. A contratransferência revelará ao analista não só o seu saber como também seus recursos libidinais e relacionais que remetem a sua própria história. Sua subjetividade é uma caixa de ressonância historizante e historizada.

 Prosseguindo nessa linha do pensamento de Hornstein, cabe ao psicanalista atualizar e avaliar algumas questões tais como a relação realidade/fantasia; sistemas abertos/fechados;  séries que se complementam na história linear e recursiva; consistência, fronteiras e valorização do ego; relação verdade material/verdade histórica, assim como, a vivencia real e psíquica desde a infância até a atualidade; a diversidade de dispositivos técnicos que incluem as estratégias e programas. Estes aspectos configuram a trama conceitual que o psicanalista dispõe para aliviar os sofrimentos característicos do desvalimento.

A transferência esperada é referida anteriormente como o “amor gelado” ou afeto sem afeto, desconectado, ou ainda, no dizer de Zimerman, uma transferência natimorta, gerando no psicanalista uma contratransferência de desistência, resultante da identificação do analista com o objeto traumatizante do paciente e sentida como uma relação analítica desanimadora e apática ou contrariamente, uma reação de impaciência, raiva ou intolerância à apatia do paciente, tentando a todo custo retirá-lo de sua passividade. Diante da reação de impaciência do psicanalista, o paciente não será capaz de sentir nada do que lhe é falado, gerando-lhe a sensação de estar sendo invadido e retraindo-se cada vez mais.

Na clínica, a escuta identificará procedimentos discursivos que buscam evitar a intrusão da interpretação ou intervenção do analista. Prendem-se a um discurso inconsistente ou sobre adaptado dificultando ao psicanalista apreender o mundo anímico e confundindo-o quanto a uma pseudo evolução analítica. Maldavsky além de identificar o discurso inconsistente, também fala do discurso catártico que funciona como verborréia contínua  que evita qualquer espaço para a intervenção do psicanalista. É um discurso com prevalência de ansiedade resultando em reações coléricas. Há ainda o discurso numérico ou especulador, desinvestindo o mundo psíquico de características qualitativas em detrimento de características quantitativas, no qual o conteúdo simbólico é substituído por números, notas, scores, graus, quantidades, enfim cálculos. Esses três discursos identificados por Maldavsky são fundamentados na falta de qualificação afetiva, podendo haver relatos de afetos não sentidos pelo paciente e também pelo analista.

Ainda com base nos estudos de Maldavsky,  observa-se três traços de caráter comuns nesses pacientes: a viscosidade, o cinismo e a abulia. A viscosidade se manifesta como necessidade de usar o outro para se apegar a um mundo sensível, que ele é incapaz de sentir. Nessa modalidade de traço de caráter o paciente apresenta uma docilidade lamuriosa que tem como objetivo despertar a compaixão do psicanalista, do outro. Algumas vezes, sensibilizam muito o interlocutor. Na sessão de análise tentam estender o fim da sessão com a introdução de novos temas. A viscosidade visa conduzir o psicanalista à forma de relação vivida pelo paciente, que é esterilizante e frustrante despertando impulsos raivosos no psicanalista estimulando uma reação de se livrar do paciente, e dessa forma, repete seu ciclo de abandono, perda e desamparo. A viscosidade ainda poderá surgir no apego ao psicanalista através de constantes elogios ao seu trabalho, sem, no entanto, operar qualquer mudança eficaz no paciente.

O cinismo aparece na forma sarcástica, de pseudo felicidade e de indiferença, com o objetivo de assegurar e ocultar sua infelicidade de viver sem vida e sem futuro, de um viver desprovido de expectativa e esperança.

A abulia é evidenciada no estado de letargia, monotonia e na manutenção permanente do princípio de inércia, resultante da prevalência da pulsão de morte cujo desejo é “nada desejar”. Em determinados momentos do processo analítico, os pacientes abúlicos podem manifestar incontidos ataques de fúria como reação às tentativas do psicanalista de tirá-los desse estado. A abulia pode se transmitir de geração a geração, configurando o que Maldavsky chama de “linhagem abúlica”, resultado de processos vinculares tóxicos e traumáticos.

Para esse tipo de patologia, o psicanalista deve construir uma clínica do possível por tratar-se de pacientes com difícil acesso, um setting possível para cada paciente, visando um trabalho de análise, mantendo uma freqüência nem sempre desejada, mas possível, agendamentos a cada término de sessão e obtendo assim pequenas seqüências de atendimento.

O objetivo desse tipo de análise não se fundamenta no prazer-desprazer de uma erogeneidade representada, mas no princípio primitivo carente de inscrições psíquicas de tensão-alívio de descargas. Assim sendo, o modelo clássico de livre associação não é um recurso útil para esse paciente, ou seja, não cabe aqui incursionar pelo universo do inconsciente buscando novas significações às experiências vividas ou conexões outras que aliviem o sofrimento do paciente que nos procura, mas sim, lançarmo-nos no aquém, na busca de tornar consciente uma percepção, na medida em que não estamos na busca do que foi expulso, excluído, transmutado, mas do que não foi vivenciado, experimentado. É através da construção de experiências, (cindidas na ordem do sensível -cuidar/sem afeto-, portanto, ação sem sentimento, base sobre a qual o desvalimento se assenta), um caminho possível para se construir significação no vinculo analítico.

Cabe ao analista atuar com todos os seus recursos possíveis, ajudando ao paciente a perceber suas experiências, senti-las, vitalizá-las e pensá-las. Desenvolver no paciente sua função auto-observadora como forma de perceber-se e cuidar-se. Deve funcionar como um possível modelo de mãe viva, capaz de suprir os buracos negros deixados pela “mãe morta” de Green, importando-se, facilitando, reanimando, explicando, reconhecendo, contendo, discriminando, inter-relacionando-se e nunca desistindo do paciente.

Conforme observei em escritos anteriores:

O paciente portador de patologias do vazio demanda a ocorrência de uma regressão dentro do setting. A regressão é imprescindível como uma experiência de ligação. Metaforicamente é como ir buscar a criança do outro lado da rua para que, segura, ela aceite atravessá-la. Proporcionar uma relação de confiança e segurança no setting é importante para que o paciente possa regredir e assim recriar situações primárias do seu conflito vivenciadas com a mãe, na etapa de dependência absoluta. Na relação transferencial com o analista surge a oportunidade do trabalho analítico e terapêutico.

O setting deverá servir como útero psicológico para daí o self encontrar os recursos, antes ausentes, que possibilitem o seu desenvolvimento.

 As sessões e o setting precisam rever as fronteiras do modelo clássico transformando o espaço físico  num lugar de intimidade, de acolhimento tal e segurança irrestrita no qual o virtual se faça realidade, ancorando-se na figura do analista, dando continência ao ódio que é o que o paciente traz; ao contrapor com a disponibilidade desse acolhimento e escuta que cria a relação especular, constituindo assim a polaridade ódio-amor sobre a qual se erguerá um possível Sujeito. Com isto, a análise transita da ação interpretativa, elaborativa e  ressignificativa para uma ação inicialmente puramente construtiva e constitutiva.

A atividade interpretativa será bastante limitada ou praticamente ausente no início da análise de um paciente com patologia do desvalimento, uma vez que, não tendo uma subjetividade constituída em si, o paciente sentirá a interpretação como algo invasivo, que o pressiona, causando um desconforto tal que poderá fazê-lo recuar e abandonar a análise.

Conclusão:

Trata-se de um trabalho de longo prazo, com muitos obstáculos a transpor, avanços e recuos, exigindo do psicanalista a construção de um tempo/espaço analítico lento, porém sólido. Flexibilidade para lidar com os recursos analíticos e acuidade para perceber quando for necessário  introduzir novas intervenções e recursos, assim como, capacidade de fazer ver ao paciente que o psicanalista pode suportar seus ataques e indiferença e ainda assim, sobreviver, estar presente,  servindo como referência (objeto real) ao paciente, são habilidades imprescindíveis ao profissional que se propõe a atender esse tipo de patologia.

Enfim, a vitalidade permanente e ativa, e a maleabilidade do psicanalista servirão como motor nesse tipo de atendimento, promovendo lentas e pequenas mudanças, porém significativas no processo do paciente, que não experimentava nenhuma mudança sob o princípio de inércia, resultando numa transição lenta do domínio da pulsão de morte à prevalência da pulsão de vida possibilitando o movimento de alternância das pulsões que movem a existência humana.

Referencias bibliográficas:

        COSTA, G. P. et al. A Clínica psicanalítica das psicopatologias contemporâneas. Porto Alegre: Artmed, 2010

       GREEN, A. Narcisismo de vida, narcisismo de morte. São Paulo: Editora Escuta, 1988

       FREUD, S. Inibições, sintomas e ansiedade. In: FREUD, S. Um estudo autobiográfico, inibições, sintomas e ansiedade, análise leiga e outros trabalhos (1925-1926) Rio de Janeiro: Editora Imago, 1976.

       __________. Luto e melancolia. In: Obras completas, v. 14. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1969, p. 287

       FREUD, S. Projeto para uma psicologia científica (1895, 1950). Obras completas. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1976

       HORNSTEIN, L. Narcisismo: autoestima, identidade e alteridad. Buenos Aires: Editora Paidós, 2002

       __________.Intersubjetividad y clínica. Buenos Aires: Editora Paidós, 2003

       __________. Patologias del desvalimiento. Instituto de Altos Estúdios en Psicologia y Ciências Sociales, UCES. Disponível em:

       <http://www.uces.edu.ar/institutos/iaepcis/desvalimiento.php> acesso em 21 de Julho de 2011.

       LIGER, O. Um olhar psicanalítico sobre a contemporaneidade e suas emergências. Rio de Janeiro: Editora Livre Expressão, 2010

       MAHLER, M. et al. O nascimento psicológico da criança. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1977.

       MALDAVSKY, D. et al. La intersubjetividad en la clínica psicoanalítica. Buenos Aires: Lugar Editorial. 2007

       ZIMERMAN, D. E. Manual de técnica psicanalítica: uma revisão. Porto Alegre: Artmed, 2004

O divã além da porta

julho 25, 2011 às 9:00 pm | Publicado em Artigos | 1 Comentário
Tags: , , , , ,

Texto retirado do site do psicanalista Jorge Forbes (CLIQE AQUI PARA VISITAR) e publicado na revista Psiquê.

“Vocês ponham o divã virado para a porta. Se o paciente quiser sair sem olhar para vocês, ele simplesmente se levanta, abre a porta e vai embora”.

Eu estava no começo de meus estudos de psicanálise, mais ou menos na metade do meu curso de medicina. Quem me ensinava a posição correta no divã da sala de análise era um consagrado psicanalista da sociedade local, terno cinza, camisa branca, cara sisuda de conteúdo, com riso comedido. E ele não ficava aí: a esta pérola da posição do móvel se somavam outros ordenamentos práticos para o correto “setting terapêutico”, como assim era chamado.

Preferencialmente não se devia estender a mão ao paciente, o menor contato físico poderia ser desencadeador de fantasias ancestrais perigosíssimas ao tratamento. Por razão semelhante, nada de fotografias na sua sala. Imagine um psicanalista que mostrasse sua família ou seus amigos, quão perturbador poderia ser.  Melhor mesmo é que nem livros tivesse, para não revelar seu gosto literário, ou sua filiação científica. Vestir-se deveria ser sempre o mais discreto possível: homens de gravata, mulheres de saia abaixo do joelho, sempre de cores pálidas. Não atender, ah, isso era fundamental, não atender pessoas da mesma família, para que a transferência não se misturasse nas intricadas redes afetivo-familiares. Aliás, era melhor também não atender ninguém que morasse nas cercanias do consultório ou da casa do analista, pois já imaginou como seria horroroso, disruptivo mesmo, um paciente ver seu analista de bermudas em uma manhã de domingo comprando um jornal na banca da esquina?

Se para ser analista fosse necessário cumprir estas normas que para mim, apesar da pouca idade, me pareciam compor um forte bestialógico, eu ia ter que escolher outra coisa para fazer na vida. Minha crítica não recaía só sobre o cumprimento bobo dessa cartilha, mas especialmente sobre a ideologia que a sustentava. É fácil perceber que tudo está ali pensado para não “perturbar” o paciente. Ora, ora, uma análise foi feita para fazer dormir, ou para acordar? Assim descrita, ela serviria para não incomodar o paciente em seu sintoma, em seu sono irresponsável e inconsciente. Continuando, percebe-se que havia uma tentativa de transformar o analista, sua pessoa, seu corpo, em algo diáfano, invisível, o mais perto possível da famosa “tela em branco” sobre a qual o paciente projetaria suas angústias, na certeza de não vê-las misturadas com a pessoa que o atendia. Triste e capenga visão do que seja a intimidade de uma pessoa: a lombada de seus livros? Suas fotos? Seus amigos? Sua roupa? Não, nada disso, esses traços podem ser indicações, alusões – e quantas vezes falsas! – mas não dizem do cerne de uma pessoa. Aliás, aí está um dos desafios da psicanálise, o de levar a perceber que todas essas características são apoios provisórios da identidade que um analisando deve ir questionando, um a um, em seu trabalho analítico, desembaraçando-se do peso de suas identificações, para poder alcançar o mais íntimo do seu ser, algo de uma estranheza familiar, como diria Freud.

Já estava pronto para fazer outra coisa na vida, como escrevi – pensei em ser gastroenterologista, pois percebia que a maioria das queixas desse sistema se relacionava mais aos sapos comidos, que a pratos mal preparados – quando me deparei na Livraria Francesa da Rua Barão de Itapetininga, em São Paulo, com um livro de um tal de Lacan, que alguém me havia assoprado muito levemente, só dizendo que tinha ouvido falar que ele vinha afirmando coisas novas na psicanálise, lá pela Paris. Abri seu livro com o título provocador de “Écrits”, como se abre livros ao léu nas estantes das livrarias e me deparei com uma frase impactante, no capítulo intitulado “A direção do Tratamento”: “O analista faria melhor situando-se em sua falta-a-ser do que em seu ser”. Claro que naquele momento não entendi muita coisa desse quase aforismo, mas entendi o suficiente para me convencer que havia uma outra psicanálise possível, diferente daquela cheia de rituais de isolamento obsessivos, e que eu poderia continuar em meu desejo de ser psicanalista. Apostei: literalmente embarquei e fui conhecer de perto esse verdadeiro acontecimento Lacan. Não me arrependi, continuo a viagem na certeza sempre mais clara que uma intimidade não se apreende nem nos detalhes de decoração, nem nas vestimentas, mas na ética de se responsabilizar, ou seja, de responder por esse desejo que sempre nos interroga. E que viva a Psicanálise, além de qualquer standard.

Pra que serve a psicoterapia?

abril 13, 2011 às 10:03 pm | Publicado em Artigos | 3 Comentários
Tags: , , , , , , , , , , ,

Por Fernando Savaglia

Preocupado com o comportamento problemático de seu filho na escola, o mafioso Tony Soprano pergunta à sua terapeuta:

– O que você acha que eu deveria fazer com ele, ir com calma ou pressioná-lo?

– Isto é difícil de responder – falou a analista.

– Quer aumento para responder? – perguntou o paciente, não disfarçando a irritação com a devolutiva da psicoterapeuta.

Este diálogo, transcrito de um dos episódios da série A Família Soprano, descreve bem a ideia simplória que muitas pessoas têm do processo da psicoterapia: pagamos para obter respostas objetivas sobre nossos afetos a alguém que se livrou completamente de suas neuroses.

O recentemente falecido José Ângelo Gaiarsa, provavelmente o maior terapeuta reichiano do Brasil, deixou em seu último livro publicado, Meio Século de Psicoterapia, contundentes opiniões sobre o processo. “Melhor ser visto, perante o paciente, como um aliado, até um cúmplice, do que se propor como uma autoridade imune ante os males do mundo no qual ambos vivem e no qual se formaram”.

É claro que a relação terapeuta/paciente tem importância fundamental em qualquer processo analítico. Porém, é unanimemente reconhecido entre os profissionais psi que cerca de 90% do que é dito pelo analista não é absorvido pelos pacientes.

A partir daí pode surgir a famosa e recorrente pergunta por parte do cliente: “estaria eu pagando para ter um amigo com quem possa desabafar?” Ou então, “como sei se a terapia está surtindo efeito?”

A resposta a esta pergunta pode parecer complexa. Muito melhor que elucubrações teóricas sobre esta ou aquela abordagem, podemos começar a respondê-la dando um exemplo de sensibilidade de um terapeuta que ao invés de tentar desarmar uma suposta neurose, soube ver no relato de seu analisando um caminho para aplacar aquela angústia. Para isso, faço uso de uma história do pedagogo e psicanalista Rubem Alves. Ele conta que certa vez recebeu um paciente que se queixava da falta de capacidade de se integrar ao mundo ao seu redor. As pessoas lhe pareciam fúteis, as relações sem profundidade e em seu trabalho estava cercado de situações injustas e egoístas. Alves, ao invés de buscar uma terapia de inclusão, isto é, tentar reintegrá-lo a este universo, num arroubo existencialista – não raro para alguns psicanalistas menos ortodoxos – sabiamente valorizou a sensação de desamparo do homem. Ressaltou sua capacidade de se deparar com a realidade e que ele havia transposto a primeira, e às vezes dificílima, etapa da construção de uma vida real.

A partir daí, juntos, analista e analisando se lançaram na aventura de buscar um lugar no mundo, apesar da “situação demencial da modernidade” como gostava de frisar Heidegger. Se em algum momento você sentir que não encontra no seu analista a figura de um cúmplice nesta jornada, existe um indício de que a terapia não está funcionando. Num mundo em que as realizações, algumas bem fúteis, se contrapõem à depressão e à ansiedade, gerando um padrão psíquico melancólico na sociedade atual, a verdadeira revolução é, justamente, transformar a sensibilidade, antes algoz, em uma janela onde se pode vislumbrar esse SER.

As palavras do genial cineasta e dramaturgo Domingos de Oliveira podem servir de norte para essa relação: “a vida oscila entre o terror e a glória. Do terror já se falou muito, e isso criou um mundo onde as glórias da vida estão ocultas. Já foi tudo muito denunciado. É preciso denunciar que vale a pena viver”.

Texto originalmente publicado no Sete Doses

Pacto edípico e pacto social

março 28, 2011 às 6:36 pm | Publicado em Artigos | Deixe um comentário
Tags: , , , , , , , ,

 

O psicanalista Hélio Pellegrino (1924-1988)

Artigo escrito por Hélio Pellegrino no suplemento Folhetim da Folha de S.Paulo do dia 11 de setembro de 1983 e que prossegue atual

Vou falar sobre o Édipo de um ponto de vista psicanalítico. Sobre Édipo, personagem de Sófocles, e sobre Édipo, herói de uma velha lenda tebana na qual se apoiou Sófocles para escrever sua obra. De um ponto de vista psicanalítico, há logo um curiosíssimo problema: Édipo personagem herói legendário, dentro de uma ética estritamente freudiana, não sucumbiu ao seu complexo de Édipo. Ele foi vítima – e achou-se tragicamente preso – de vicissitudes pré-edipicas. Não nos esqueçamos dos dois marcos fundamentais da vida de Édipo: Tebas e Corinto.

Édipo conseguiu sair de Corinto, conseguiu desligar-se dos pais que o haviam criado e amado e que, portanto, o haviam preparado para a aventura da liberdade. No entanto, ficou atado aos pais de Tebas, que o haviam votado a morte. E foi com relação a eles que se consumou a tragédia. Recapitulemos a história de Édipo: filho de Laio e Jocasta. Antes de seu nascimento, Laio ouviu do oráculo a predição de que teria um filho que o mataria e se casaria com a mãe.

Ao nascer, Édipo não recebeu dos pais nenhum nome – o inominado, portanto – e foi condenado à morte por Laio e Jocasta. A mãe o entregou a um pastor para que o matasse. O pastor levou o recém nascido ao monte Citerão e, apiedando-se dele, ao invés de matá-lo, furou-lhe os pés e o atou, com uma corda, a uma arvore. Fica, aqui, simbolicamente, prefigurada uma das vertentes capitais do destino de Édipo. A árvore é um clássico símbolo materno. Édipo, por um lado, jamais conseguiu desamarrar-se da mãe. Ele ficou atado a ela, agarrado à mãe, como um náufrago se agarra à sua tábua de salvação. O desamor da mãe ao recém nascido corresponde ao naufrago deste. Sobrevive-se. Embora a odiando por um lado, jamais se arrancará da mãe que o rejeitou.

Prosseguindo a história: um pastor de Corinto, de passagem pelo bosque, viu o pequeno Édipo, dependurado a arvore, e o resgatou, cortando a corda que o amarrava. Esse pastor desempenhou, em termos psicanalíticos, a função maiêutica do pai. Ele cortou o cordão umbilical que o ligava a árvore-mãe. O pai ajuda, de maneira decisiva, a partejar a subjetividade do filho, permitindo-lhe desfusionar-se, diferenciar-se da mãe.

Em Corinto, Édipo (oiden pous: o que tem os pés inchados) foi acolhido por Mérope e Políbio, que não tinham filhos, e foi criado como filho legítimo, ignorando a verdade sobre sua origem. Já adulto, ouviu num banquete, de um conviva bêbado, a notícia de que não era filho legitimo de Mérope e Políbio. Profundamente torturado, consultou o oráculo e ouviu dele a predição terrível: seria assassino do pai, casar-se-ia com a mãe e geraria uma prole nefanda.

Inventando o próprio caminho

Para fugir ao destino, Édipo abandonou Corinto. Ele conseguiu fazê-lo, já que não estava atado aos pais que respeitaram e amaram. O amor é condição necessária – e suficiente – da liberdade. Em viagem, na tentativa de ser o inventor de seus próprios caminhos, Édipo, numa encruzilhada, tem violenta altercação com um velho, acompanhado de escolta. Enfrenta-o e mata o ancião e alguns do seu grupo, sem saber que consumara o parricídio. Seguindo estrada, nas proximidades de Tebas, tem noticias de que a Esfinge desafiava, com enigmas, os que por ela passassem, devorando os que não o decifravam. Édipo aceita o desafio, enfrenta a esfinge e decifra o enigma que lhe havia sido proposto: “Qual é o animal que, pela manhã, anda com quatro pés, ao meio dia com dois e, à tarde, com três pés?” “É o homem” – respondeu Édipo – “que na infância gatinha, na idade adulta anda erguido e, na velhice, se apóia num bastão.” A Esfinge, roída de despeito, precipitou-se despedaçada no abismo. Édipo, por tê-la destruído, recebeu como prêmio a mão de Jocasta, viúva de Laio, e passou a reinar sobre Tebas.

É curioso notar que Édipo recebeu Jocasta como troféu, sem sequer conhecê-la. Com isso fica caracterizado o vínculo arcaico que o liga a mãe, anterior a uma verdadeira escolha de objeto. A destruição da Esfinge, por sua vez, corresponde à derrota da imago da mãe má rejeitadora, devoradora e filicida. Temos aí uma cisão da figura materna – de Jocasta, portanto – e a derrotada imago da mãe aterradora e perseguidora. Foi graças a esse mecanismo de defesa que Édipo conseguiu casar-se com Jocasta depois de ter matado Laio.

No casamento foram gerados quatro filhos: Eteócles, Polinice, Ismênia e a doce Antígona. Édipo reinou sobre Tebas até que começou a ser pressionado pelos flagelos. Em virtude do assassinato de Laio foi ordenada uma rigorosa apuração. As investigações se fizeram e, ao fim delas, Édipo foi descoberto como parricida e incestuoso. Jocasta, também devorada de culpa, enforcou-se, reproduzindo a figura da pequena criança votada à morte, e dependurada numa corda.

* * * * * *

Vejamos agora a concepção freudiana do complexo de Édipo. Diz Freud: entre os 3 e os 5 anos a criança chega à organização fálica – ou genital infantil – de sua libido. No menino – vamos falar do Édipo masculino, em sua forma direta – a excitação sexual se organiza, predominantemente, em torno do pênis. Este órgão recebe, por isso, uma extraordinária valorização narcísica. Nessa etapa – fálica – de sua evolução libidinal o menino deseja sexualmente a mãe, a partir de uma posição genital infantil, e odeia o pai, rival que lhe impede a satisfação de sua paixão incestuosa. O menino quer possuir a mãe, sexualmente, e quer matar o pai. Ele luta contra a interdição do incesto que o separa da mãe. Quer matar o pai, seja como rival, seja como representante da Lei da Cultura.

O Édipo representa a derradeira etapa de um progressivo – e doloroso – processo de separação: corte do cordão umbilical, desmame e, por fim, proibição do incesto, ao nível da genitalidade infantil. O Édipo obriga o ser humano a superar a infância, isto é, sua dependência da mãe e o desejo que sente por ela. Nessa medida, corresponde a um segundo nascimento, uma segunda expulsão do paraíso.

De que maneira o menino transcende, segundo Freud, o seu complexo de Édipo? Ele o transcende, inicialmente, pelo medo que passa a ter da castração. E aqui se articula com o complexo de Édipo o complexo de castração, de importância central no pensamento psicanalítico. O menino descobre, na época do seu Édipo, isto é, na fase fálica, a diferença anatômica dos sexos. Ele verifica, aterrorizado, que a menina não tem pênis – e que a mãe também não possui. Ele passa a ter medo de que o mesmo lhe possa acontecer, como castigo imposto pelo pai, em virtude de seus impulsos incestuosos e parricidas. A fantasia de castração corresponde também um dos fantasmas originários, aos quais Freud atribui dimensão filogenética, arquetípica. O menino, como vimos, valoriza extraordinariamente o seu pênis, e atribui altíssimo significado narcísico. O medo à perda do pênis – filogeneticamente condicionado – obriga-o a um recuo. O menino acaba, na hipótese mais favorável, por abrir mão do seu projeto incestuoso. Ele internaliza a proibição do incesto e se identifica com os valores paternos. Dessa forma, cumpre uma etapa fundamental que o prepara no sentido de se tornar sócio da sociedade humana.

Aqui se levanta o problema crucial da relação do ser humano com a lei. É claro que nos referimos à Lei primordial, que marca a passagem – o salto – da natureza para a cultura. O modelo, contudo, tem validade geral e pode ser aplicado aos vários níveis institucionais em que transcorre a aventura humana. Não há duvida de que a Lei, para ser respeitada, precisa ser temida. Nesse sentido, para a resolução do Édipo, é necessário o temor à castração segundo a concepção freudiana. Uma lei que não seja temida – que não tenha potência de interdição e de punição – é uma lei fajuta, impotente. No entanto, o temor à lei, sendo necessário, é absolutamente insuficiente para fundar a relação do ser humano com a lei. Uma lei que se imponha apenas pelo temor é uma lei perversa, espúria – lei do cão.

Só o amor e a liberdade, subordinando e transfigurando o temor, permitem uma verdadeira, positiva e produtiva relação com a lei. A autêntica aceitação de interdito do incesto, de modo a torná-lo nódulo crucial capaz de estruturar uma identificação posterior com os ideais da cultura, só é possível na medida em que a criança seja amada e respeitada como pessoa na sua peculiaridade pelo pai e, antes dele, pela mãe. É o amor materno que funda a personalidade para que a criança vença a angústia de separação, tornando-se um ser outro em respeito à mãe.

O amor da mãe, já modelado pela cultura, prepara o advento do terceiro, do pai, cuja entrada em cena por meio da estrutura triádica ajuda a criança a construir sua própria liberdade e autonomia.

Há um momento, no Édipo, em que a criança tem que assumir sua condição de terceiro termo excluído. Ela tem que aceitar-se excluída da relação de amor dos pais. O menino, no Édipo, tem barrado o seu acesso sexual a mãe. Esta perda, no entanto, que representa o fechamento de uma porta, deve abrir no futuro inúmeras outras portas. O Édipo proíbe o incesto, sem dúvida, mas permite todas as outras escolhas que não sejam incestuosas. A Lei existe, não para humilhar e degradar o desejo, mas para estruturá-lo, integrando-o no circuito do intercâmbio cultural. A estrutura edípica representa a gramática elementar do desejo: a partir de suas regras vai ser possível a articulação do discurso desejante. Assim, como na língua as construções lógico-sintáticas são a condição da invenção dos discursos, assim também o Édipo deve representar a construção essencial que vai permitir ao desejo desferir o seu vôo.

O Édipo é a Lei do desejo. A Lei do desejo pode e deve corresponder um desejo da Lei. A Lei existe sob a égide de Eros. Ela é, portanto, um produto erótico, está na base do processo civilizatório, desde sua origem, na raiz do esforço individual e coletivo no sentido da hominização e da humanização do ser humano. Existe uma plena possibilidade de se desejar a Lei e o terceiro termo paterno – a metáfora paterna – que o representa. A propósito, relato-lhes o primeiro sonho de um paciente muito expressivo. O sonhante está fechado numa cabine de navio em naufrágio. A água sobe, ele vai afogar-se. Olha para cima e percebe uma vigia de vidro, por onde poderia sair, se conseguisse rompê-la. Desesperado, lança mão de uma longa barra de ferro, que está a um canto da cabina e com ela quebra a vigia. O sonho é belíssimo. A barra de ferro representa o falo paterno e a força do Pai de cuja ajuda o sonhante necessita para escapar ao mortífero desejo de retorno ao útero materno – ou ao engolfante e todo-poderoso desejo da mãe. Esse significante paterno, resgatado durante o processo analítico, veio a constituir o eixo do esforço do paciente na construção de si próprio, enquanto sujeito.

* * * * * *

Vejamos agora o que diz a antropologia psicanalítica na interpretação que faz do processo civilizatório. Para Freud, este processo implica, necessariamente, uma renúncia pulsional tanto erótica quanto agressiva. Civilizar é, portanto – e por um lado –, reprimir ou suprimir. Tal conceito fica expresso, com clareza, no livro O “Mal-estar da Civilização”. Na obra, é possível compreender a presença, em cada ser humano, de certo e inevitável rancor contra a cultura.

Entretanto, a intensidade e a violência da repressão – ou da supressão – irão depender não apenas das necessidades intrínsecas ao próprio processo civilizatório, mas da intensidade da luta de classes que nele se desenvolve. Freud não foi bastante lúcido nesse sentido. Ao analisar a sociedade capitalista, que tomou como modelo, não se deu conta de que nela a intensidade da repressão existe não apenas em função das exigências do processo civilizatório, mas da injustiça social, que é preciso garantir e manter pela força.

Na sociedade capitalista existe inevitavelmente aquilo que Marcuse denunciou como sobre-repressão, em virtude da exploração do homem pelo homem. Onde há injustiça e luta de classes há sobre-repressão. Temos, nessa medida, o direito de supor que, numa sociedade sem classes, dispensada da violência repressiva necessária à manutenção da injustiça, restará a exigência de uma mínima renúncia pulsional para que o tecido social se estruture e articule.

Mas, voltemos ao Édipo, pedra angular, segundo Freud, da estrutura intrapsíquica e do processo civilizatório. A criança, na vicissitude edípica, tem que renunciar às suas pulsões incestuosas e parricidas. Tem que renunciar, portanto, à onipotência do seu desejo e ao princípio do prazer, adequando-se ao princípio de realidade. Tal renúncia se faz em nome do temor, subordinado ao amor. A solução do complexo de Édipo implica um pacto – uma aliança – com o pai e com a função paterna. Ora, num pacto, sob a égide da concórdia, ganham os dois lados: no Édipo, com o acordo, ganha a sociedade, representada pelo pai e pela família e tem que ganhar também a criança. O pacto edipiano implica mão dupla, um toma lá dá cá. A criança perde, mas ganha. Em troca da renúncia que lhe é exigida, tem o direito de receber nome, filiação, lugar na estrutura de parentesco, acesso à ordem do simbólico, além de tudo o mais que lhe permita desenvolver-se e sobreviver – vivendo. A criança tem que receber do Édipo as ferramentas essenciais que lhe permitam construir-se como sujeito humano. Com isto, ela ama e respeita o pacto que fez e, nesta medida, fica preparada para identificar-se com os ideais e valores da cultura à qual pertence.

A Lei da cultura e o pacto social

O pacto com a Lei da Cultura – ou Lei do pai – é a tarefa primordial da criança na primeira etapa do seu desenvolvimento psicossexual. Transposto o Édipo e suas vicissitudes, cheias de som e fúria, a criança entra no período de latência e nele inicia o processo de aquisição de uma competência pela qual, no futuro e por meio do trabalho, irá contribuir para a construção e a transformação da vida social. A Lei da cultura representa, por assim dizer, o batismo do ser humano, a marca da passagem que o faz ingressar, como postulante ou neófito, no círculo de intercâmbio social. O Édipo e a linguagem, que são estruturalmente articulados, representam os grandes veículos de socialização da criança.

Na idade adulta, ao pacto com a Lei da Cultura – centrado em torno da renúncia – e aos impulsos sexuais, acrescenta-se um pacto social, estruturado em torno da questão do trabalho. O trabalho é o elemento mediador fundamental, por cujo intermédio, como adultos, nos inserimos no circuito e intercâmbio social, e nos tornamos de fato e de direito-sócios plenos da sociedade humana. O pacto social sucede – e se articula – com o pacto sexual. Ele confirma e amplia a aliança com a Lei primordial. Ele está para a Lei assim como a crisma está para o batismo, na religião cristã.

No pacto social, por meio do trabalho, pede-se ao ser humano que confirme a sua renúncia pulsional primígena através da aceitação do princípio de realidade. Trabalhar é inserir-se no tecido social por mediação de uma práxis aceitando a ordem simbólica que o constitui. Trabalhar é disciplinar-se, é abrir mão da onipotência e da arrogância primitivas, é poder assumir os valores da cultura com a qual, pelo trabalho, nos articulamos organicamente. O pacto com a Lei do pai prepara e torna possível o pacto social. Este exige renúncias, e uma função simbolizadora, que só serão viáveis na medida em que uma interdição originária – a proibição do incesto – lhes prepara o aposento.

Se a Lei da Cultura é um pacto e, portanto, implica deveres e direitos, tendo mão dupla – toma lá da cá –, sem o que o pacto fica invalidado em sua estrutura, também o pacto social implica direitos e deveres e tem, necessariamente, mão dupla, sem o que não conseguirá sustentar-se. O pacto primordial prepara e torna possível um segundo pacto, em torno da questão do trabalho. O primeiro pacto garante e sustenta o segundo, mas este, por retroação, confirma ou infirma o primeiro. O pai é o representante da sociedade junto à criança. A má integração da Lei da Cultura, por conflitos familiares não resolvidos, pode gerar conduta anti-social. Uma patologia social pode também ameaçar, ou mesmo quebrar, o pacto com a Lei do Pai.

Assim como a aceitação da Lei da Cultura tem que abrir, para a criança, a possibilidade de ganhos fundamentais, assim também o pacto social não pode deixar de criar, para o trabalhador, direitos inalienáveis. Ofereço à sociedade minha competência e minha renúncia ao princípio do prazer sob forma do meu trabalho. Esta oferta me foi exigida pela própria sociedade, para que eu fosse aceito como sócio dela. Em nome do exercício do meu trabalho, tenho o direito sagrado de receber o mínimo indispensável à preservação de minha integridade física e psíquica. A dolorosa e laboriosa aquisição da competência, enquanto trabalhador, é a parte que me cabe, no pacto com a sociedade. O retorno – o dá cá, resposta ao toma lá – compete à sociedade.

Se o pacto social tem mão única, se os direitos do trabalho são desrespeitados e aviltados, ele pode romper-se, implicando gravíssimas consequências. A sociedade só pode ser preservada e respeitada pelo trabalhador na medida em que o respeite e o preserve. Se o trabalhador for desprezado e agredido pela sociedade, tenderá a desprezá-la e agredi-la até atingir um ponto de ruptura. Na melhor das hipóteses, essa ruptura poderá levar o trabalhador a tornar-se um revolucionário. Ele rompe com a sociedade não para atacá-la cegamente, mas para transformá-la revolucionariamente, por meio da ação de massas. Em tal caso, a ruptura com o pacto social não chega a provocar a ruptura com a Lei da Cultura – ou Lei do Pai. Apesar da injustiça social, ou melhor, por causa dela, o revolucionário se apóia nas melhores e mais altas tradições e virtudes libertárias do seu povo. Nessa medida, mantém-se fiel ao seu Ideal de Eu e preserva, com isto, a aliança com o Pai simbólico.

Tal hipótese é a melhor das hipóteses. Examinemos a pior delas – com freqüência a mais frequente. O pacto com a sociedade, como ficou visto, é preparado e caucionado pelo pacto primordial. A renúncia edípica prefigura e torna possível a renúncia posterior, exigida pelo trabalho. Se o pacto social é iníquo, e avilta o trabalho, ele vai aviltar e tornar iníqua a renúncia pulsional por ele próprio exigida. O amor ao trabalho só é possível na medida em que os direitos do trabalhador sejam minimamente respeitados. Se isto não ocorre, há uma ruptura do pacto social. O trabalho torna-se sem sentido, aviltante e humilhante, tanto quanto o sacrifício e a renúncia que, em seu nome, me disponho a fazer. Rompo, aí, com a sociedade, e esta ruptura terá, inevitavelmente, profundas repercussões intrapsiquicas, que irão sacudir, sob a forma de um abalo sísmico, os fundamentos do pacto primordial com o Pai simbólico – e com a Lei da Cultura.

A ruptura com o pacto social, em virtude de sociopatia grave – como é o caso brasileiro –, pode implicar a ruptura, ao nível do inconsciente, com o pacto edípico. Não nos esqueçamos que o pai é o primeiro e fundamental representante junto à criança da Lei da Cultura. Se ocorre, por retroação, tal ruptura, fica destruído, no mundo interno, o significante paterno, o Nome-do-Pai e, em consequência, o lugar da Lei. Tal desastre psíquico vai implicar o rompimento da barreira que impedia, em nome da Lei, a emergência dos impulsos delinquenciais pré-edípicos, predatórios, parricidas, homicidas e incestuosos. Assistimos a uma verdadeira volta do recalcado. Tudo aquilo que ficou reprimido ou suprimido – em nome do pacto com o pai – vem à tona sob forma de conduta delinquente e anti-social.

É essa a chave psicanalítica para compreensão do surto crescente de violência e delinquência que dilacera o tecido social brasileiro nas grandes cidades. Existe, em nosso País, uma guerra civil crônica sob a forma de assaltos, roubos, assassinatos, estupros – e outras gentilezas do gênero. Esta guerra foi declarada e é mantida pelo capitalismo selvagem brasileiro, pela cupidez e brutal egoísmo das classes dominantes, nacionais e multinacionais, que o sustentaram e expandiram as custas da miséria do povo.

A favor do grande capital

Em verdade, o golpe militar de 1964 – uma contra-revolução preventiva, controlada pelos interesses norte-americanos – foi desfechado, primordialmente, contra a classe trabalhadora que constituía maioria da população brasileira. O golpe de 1964 se fez contra o trabalho, a favor do grande capital, nacional e multinacional. Os militares, em nome da Doutrina de Segurança Nacional, fizeram contra o povo uma opção imperialista. Esta opção implantou em nosso País um modelo econômico de capitalismo selvagem, excludente e concentrador de riqueza, que arrastou à miséria e ao desespero a imensa maioria do povo. O trabalho em nossa pátria é degradado e aviltado. Chega-se, agora, ao luxo extremo e sinistro da recessão e do desemprego, comandado da Doutrina de Segurança Nacional, pelo Conselho de Segurança Nacional. Voltamos às origens!

Os migrantes, os paus-de-arara, os bóias-frias, os 40 milhões de brasileiros reduzidos à pobreza absoluta, esses não têm nada – absolutamente nada – que os leve a respeitar e prezar a sociedade brasileira. Eles são cuspidos e enxovalhados, enquanto seres humanos e força de trabalho. Ao mesmo tempo espocam os escândalos impunes: Riocentro, Proconsult, Baumgarten, Capemi, Delfin. O pobre absoluto não tem por que manter o pacto social com uma sociedade que o reduz à condição de detrito, ao mesmo tempo em que, nos seus estratos dirigentes, se entrega à corrupção e ao deboche impune. Ele tem toda razão de odiar e repelir essa sociedade. Ao romper com o pacto social, na medida em que não tenha uma alternativa político-transformadora – e libertadora – rompe, ao mesmo tempo, e por retroação, com a Lei da Cultura. Comete, no mundo inconsciente, parricídio puro e simples e, tendo destruído as barreiras antepostas os seus impulsos primitivos, entrega-se a eles e parte para a delinquência: roubo, homicídio, estupro, sequestro e tudo o mais.

O surto de delinquência que no momento cresce nas grandes cidades de maneira assustadora é uma resposta perversa à delinquência mais do que perversa – porque institucionalizada – do capitalismo selvagem brasileiro. A criminalidade do povo pobre é pelo menos uma resposta desesperada, e se faz fora da lei contra a lei. Pior que ela, é a delinquência institucionalizada dos ricos, dos banqueiros, dos que lucram 500 por cento ao ano, dos que se locupletam com a especulação desenfreada, dos que entregam a soberania nacional à voracidade predadora da finança internacional.

É mais honrado e menos perverso ser delinquente fora da lei do que sê-lo em nome da lei, acobertado e protegido por ela: o acanalhamento da lei, a corrosão dos ideais que justificam a vida, o aviltamento do trabalho humano. A delinquência das massas não é, obviamente, resposta adequada para a delinquência do capitalismo selvagem brasileiro. O que é preciso é que as massas se politizem e se organizem, pois só elas serão capazes de transformar radicalmente a sociedade brasileira, de modo a por um fim ao FMI, ao autoritarismo militar e a outras manifestações que perturbem a marcha do povo no sentido da liberdade, da igualdade e da fraternidade.

Sociopatia e delinquência são faces de uma só moeda. A ruptura com o pacto social precipita, com grave frequência, a ruptura com a Lei da Cultura. É preciso mudar o modelo econômico e social brasileiro por uma questão de higiene mental, moral e política. Por uma questão de vergonha.

Maria Rita Kelh e a depressão

fevereiro 16, 2011 às 4:11 pm | Publicado em Artigos | 12 Comentários
Tags: , , , , , , , ,

Texto retirado no site da psicanalista Maria Rita Kelh

A psicanalista Maria Rita Kelh

A depressão é uma forma muito particular e avassaladora daquilo que corriqueiramente chamamos a dor de viver. Juntamente com a angústia e a dor propriamente dita, é uma constelação de afetos tão familiar que, como escreve Daniel Delouia, dificilmente conseguimos classificá-la entre os quadros clínicos da psicopatologia. À dor do tempo que corre arrastando consigo tudo o que o homem constrói, ao desamparo diante da voragem da vida que conduz à morte – que para o homem moderno representa o fim de tudo – a  depressão contrapõe um outro tempo, já morto: um “tempo que não passa”, na expressão de J. Pontalis.

O psiquismo, acontecimento que acompanha toda a vida humana sem se localizar em nenhum lugar do corpo vivo, é o que se ergue contra um fundo vazio que poderíamos chamar, metaforicamente, de um núcleo de depressão. O núcleo de nada onde o sujeito tenta instalar, fantasmaticamente, o objeto perdido – objeto que, paradoxalmente, nunca existiu.

A rigor, a vida não faz sentido e nossa passagem por aqui não tem nenhuma importância. A rigor, o eu que nos sustenta é uma construção fictícia, depende da memória e também do olhar do outro para se reconhecer como uma unidade estável ao longo do tempo. A rigor, ninguém se importa tanto com nossas eventuais desgraças a ponto de conseguir nos salvar delas. Contra este pano de fundo de nonsense, solidão e desamparo, o psiquismo se constitui em um trabalho permanente de estabelecimento de laços – “destinos pulsionais”, como se diz em psicanálise – que sustentam o sujeito perante o outro e diante de si mesmo.

Freudianamente falando, a subjetividade é um canteiro de ilusões. Amamos: a vida, os outros, e sobretudo a nós mesmos. Estamos condenados a amar, pois com esta multiplicidade de laços libidinais tecemos uma rede de sentido para a existência. As diversas modalidades de ilusões amorosas, edipianas ou não, são responsáveis pela confiança imaginária que depositamos no destino, na importância que temos para os outros, no significado de nossos atos corriqueiros. Não precisamos pensar nisso o tempo todo; é preciso estar inconsciente de uma ilusão para que ela nos sustente.

A depressão é o rompimento desta rede de sentido e amparo: momento em que o psiquismo falha em sua atividade ilusionista e deixa entrever o vazio que nos cerca, ou o vazio que o trabalho psíquico tenta cercar. É o momento de um enfrentamento insuportável com a verdade. Algumas pessoas conseguem evitá-lo a vida toda. Outras passam por ele em circunstâncias traumáticas e saem do outro lado. Mas há os que não conhecem outro modo de existir; são órfãos da proteção imaginária do “amor”, trapezistas que oscilam no ar sem nenhuma rede protetora embaixo deles. “A depressão é uma imperfeição do amor”, escreve Andrew Solomon, autor de “O demônio do meio-dia”, vasto tratado sobre a depressão publicado nos Estados Unidos e traduzido no Brasil no final de 2002. Faz sentido, se considerarmos o sentido mais amplo da palavra amor.

Durante cinco anos, Solomon dedicou-se a pesquisar a depressão: causas e efeitos, tratamentos, hipóteses bioquímicas, estatísticas. Recolheu histórias de vida de dezenas de pessoas que passaram por crises depressivas – “nunca escrevi sobre um assunto a respeito do qual tantos tivessem tanto a dizer”. A estas, acrescentou sua própria história – o trabalho no livro foi uma forma de reação ao longo período em que ele próprio passou por sérias crises depressivas. Um período em que, nas palavras do autor, “cada segundo de vida me feria”.

A julgar pelos números recolhidos por Solomon em relatórios da divisão de saúde mental da Organização Mundial de Saúde – o DSM-IV – esta ferida acomete a um número cada vez maior de pessoas no mundo, e particularmente nos Estados Unidos. 3% da população norte americana sofre de depressão crônica – cerca de 19 milhões de pessoas, das quais 2 milhões são crianças. A depressão é a principal causa de incapacitação em pessoas acima de cinco anos de idade. 15% das pessoas deprimidas cometerão suicídio. Os suicídios entre jovens e crianças de 10 a 14 anos aumentaram 120% entre 1980 e 1990. No ano de 1995, mais jovens norte-americanos morreram por suicídio do que de da soma de câncer, Aids, pneumonia, derrame, doenças congênitas e doenças cardíacas.

Esta forma de mal estar tende a aumentar, na proporção direta da oferta de tratamentos medicamentosos: há vinte anos, 1,5% da população dos Estados Unidos sofria de depressões que exigiam tratamento. Hoje este número subiu para 5%. Sincero adepto dos tratamentos farmacológicos, que segundo ele salvaram sua vida, Andrew Solomon acaba por se perguntar se a doença cresce com o desenvolvimento da medicina ou se a indústria farmacêutica produz as doenças para os remédios que desenvolve, do mesmo modo que outros ramos industriais criam mercados para seus produtos.

Insight sem inconsciente?

A contribuição das terapias medicamentosas no tratamento das doenças mentais é inegável, e o analista, assim como outros “terapeutas da fala” no dizer de Solomon, não pode dispensá-la. “O Prozac não deveria tornar o insight dispensável,”, diz Robert Klitzman, da Universidade de Colúmbia, citado pelo autor. “Deveria torná-lo possível”.

Mas qual o insight possível, capaz de produzir efeitos sobre a subjetividade, em uma cultura onde as práticas de linguagem se impõem fortemente de modo a apagar o sujeito do inconsciente? As histórias de pacientes depressivos enumeradas por Andrew Solomon centram-se ao redor da perspectiva única do vitimismo. As pessoas se deprimem porque não suportam o que foi feito a elas. Acidentes, perdas traumáticas, abandonos, violência, abuso sexual na infância; é de fora para dentro que a vida psíquica se impõe àqueles que sofrem de mal estar.

É óbvio que a rede de proteção do psiquismo pode ser rompida pelas irrupções traumáticas do real; mas as “desgraças da vida” recaem sempre sobre um sujeito, incidem sobre uma posição desejante e são rearticuladas pelas formações do inconsciente, que são formações da linguagem. Do ponto de vista do vitimismo, a cura da depressão consiste na eliminação de todo traço de “má notícia” que advenha do inconsciente. A psiquiatria e a indústria farmacêutica aliam-se a este ponto de vista. “Assistimos a um conluio curioso entre a descrição psiquiátrica e a própria queixa do deprimido”, escreve Delouia. “A ignorância a respeito do psíquico “une o fenômeno depressivo com a parafernália nosográfica da psiquiatria”.

O autor não deixa de ser crítico em relação a esta perspectiva. “Nós patologizamos o curável. Quando existir uma droga contra a violência, ela será encarada como uma doença”. Também é crítico em relação ao ideal de remoção química de toda a dor de existir. No entanto, a ingenuidade a respeito da realidade psíquica prevalece até mesmo em relação à sua própria crise depressiva. Filho de uma mulher ativa e absorvente, que mais tarde ele próprio pode perceber como depressiva, Andrew Solomon participou, junto com o pai e o irmão, do suicídio assistido da mãe, vítima de câncer no ovário aos 58 anos. Depois dessa morte, dramática e intensamente estetizada, a fantasia de suicídio ocorre aos outros membros da família. No ano seguinte, Solomon inicia uma análise com uma mulher que lhe lembra a mãe, e propõe a ela um pacto incondicional: não abandonarão o tratamento até o “fim”, sob nenhuma condição. Mas alguns anos depois,a analista anuncia ao dedicado analisando que vai deixar o trabalho. Aposentadoria por tempo de serviço…

No tempo de análise que lhe resta, Andrew Solomon não entende por que vai entrando em depressão cada vez mais grave, até que a própria analista concorda em que ele busque auxílio psiquiátrico. A análise “termina” pouco depois, e ele atravessa um ciclo de depressões gravíssimas. A inabilidade da analista de Solomon quanto ao manejo da transferência diante de um quadro de luto melancólico salta aos olhos do leitor familiarizado com a psicanálise. Não é sem razão que ele escreve, anos mais tarde, que a psicanálise seja “hábil para explicar, mas não eficiente para mudar” os quadros depressivos.

A julgar pelo relato de Solomon, seu tratamento psicanalítico foi baseado na reconstituição da vida infantil, em busca de um causalidade psíquica que, de fato, pode ter valor explicativo mas não produz nenhuma intervenção sobre o psiquismo vivo e ativo no sujeito adulto. Pierre Fédida, em seu livro sobre a depressão, adverte sobre os riscos de se buscar a evocação de um “acontecimento real que se supõe empiricamente traumático: a vivência infantil – essencialmente inatual na fala associativa – recebe assim uma positividade patogênica, na forma de uma atualidade passada”. O “infantil” que interessa à psicanálise não é o do passado, rememorado pelo eu, mas o que se manifesta ao vivo na transferência, nas demandas dirigidas ao analista. Como a analista de Solomon não se deu conta da relação entre a proposta de uma análise incondicional feita por ele, o amor pela mãe e o pacto de morte que o uniu a ela? Como não se deu conta da relação entre a crise depressiva de seu analisante e o anúncio burocrático de sua “aposentadoria”?

O livro de Solomon não oferece nenhuma contribuição decisiva para o conhecimento da depressão, mas lança uma luz importante sobre as relações entre a emergência epidêmica dessa forma de mal estar e os modos de subjetivação predominantes na cultura norte-americana. Em uma sociedade onde as formações discursivas apagam o sujeito do inconsciente, em que a felicidade e o sucesso são imperativos superegóicos, a depressão emerge – como a histeria na sociedade vitoriana – como sintoma do mal estar produzido e oculto pelos laços sociais. O vazio depressivo, que em muitas circunstâncias pode ser compensado pelo trabalho psíquico, é agravado em função do empobrecimento da subjetividade, característico das sociedades consumistas e altamente competitivas. A “vida sem sentido” de que se queixam os depressivos só pode ser compensada pela riqueza do trabalho subjetivo, ao preço de que o sujeito suporte, amparado simbolicamente pelo analista, seu mal estar. A eliminação farmacológica de todas as formas de mal estar produz também, paradoxalmente, o apagamento dos recursos de que dispomos para dar sentido à vida.

Dimensões do silêncio

janeiro 14, 2011 às 5:38 pm | Publicado em Artigos | Deixe um comentário
Tags: , , , , , ,

 

O psicanalista Gilberto Safra

Por André Toso

Em conferência realizada em 2009, o psicanalista e pensador brasileiro Gilberto Safra falou sobre as dimensões do silêncio. Apenas o título da palestra já seria tema de reflexão e de curiosidade. Mas o conteúdo da fala de Safra impressiona. Seu pensamento, moderno e multidisciplinar, faz estudantes e psicanalistas pensarem além do óbvio e abandonarem a preguiça intelectual. E o mais interessante é que os tecnicismos ficam de lado e qualquer indivíduo que consiga interpretar um texto consegue usufruir da sabedoria deste pensador.

Utilizando a prática clínica do pediatra e psicanalista inglês Donald Woods Winnicott (1896 – 1971) como base, Safra afirma que o silêncio deve ser tratado como um dos temas fundamentais de nosso tempo e, por consequência, da psicanálise. Para Winnicott, o estado em que o ser humano pode recomeçar e se entender é quando ele goza da solitude. E essa solitude, por sua vez, só pode ser alcançada em um momento em que o paciente se encontra totalmente dependente e, portanto, não se sente como um ser. “É aí que o individuo inicia a experiência de si mesmo, como só”, diz Safra. É neste momento que ocorre o fenômeno da comunicação silenciosa.

No momento da análise, inúmeros pacientes, ao se depararem com o silêncio, não vivem uma experiência de presença e sim de agonia diante do impensável, do indizível. Pelo fato de o sofrimento do analisando sempre expressar algo sobre o mal-estar contemporâneo, tem-se aí a importância que o silêncio tem em nossos tempos, e como é difícil encará-lo. Por isso, o analista deve ser silêncio para acolher a singularidade do paciente. Mas ele deve ser também objeto interventor, pois se for só silêncio convidará o analisando a cair em um precipício ao qual ele não está preparado.

Assim como o bebê, o paciente necessita de um ser humano que lhe seja objeto e presença. A presença é que a mãe possibilite o bebê ser no estado de quietude. A beleza da frase é óbvia. Apenas com o olhar, com a presença física, sem palavras, já que o bebê não tem ferramentas de comunicação, é que a mãe consegue fornecer ao seu filho o amor e o conforto que ele necessita. Na clínica esse também deve ser o papel do analista: criar um vínculo tão forte com seu paciente que o silêncio, o estar juntos em uma sala sem precisar de signos, transforme-se em presença.

Para Safra, a experiência de encontro do objeto possibilita a ação no mundo, e é isso que favorece a abertura para a realidade. Já a experiência de presença possibilita o estabelecimento do estado de quietude e o encontro do silêncio na interioridade do si mesmo. O silêncio na interioridade do si mesmo oferta morada ao núcleo do self que jamais se comunica (a parte de todos nós que não contém palavras, que é só instinto, pulsão).

Para Safra, e isso é muito bonito, o silêncio de si é paradoxalmente a presença silenciosa do outro. O analisando, portanto, precisa do objeto para mover-se no mundo e do silêncio para encontrar-se com seu mundo interno, que é intraduzível e indizível. O analisando, mesmo sem saber, busca esse indizível, essa não representação simbólica. Para explicar isso, Safra afirma que no mundo contemporâneo, onde tudo é significado, onde os signos formam toda a realidade, as pessoas buscam um silêncio, que pode estar em um desejo de morte ou em um desejo de ver o mundo desnudado, sem significado, não-nomeado.

O mundo, cada vez mais hiper-estimulado e funcional, tem cada vez menos a presença do silêncio. O homem, assim, atordoa-se em uma maré de informações e necessita de um silêncio que seja hospitalidade e não indiferença. Safra exemplifica com um analisando que vibrou ao ver uma cratera no asfalto de uma grande avenida da cidade. “Se tem uma cratera nessa avenida, o mundo tem esperança”, disse o paciente. Ele celebrava a visão da terra em meio a um mundo repleto de medidas, de coisas criadas pelo homem e não naturais. O analista, assim, deve conhecer a importância da palavra e também da não-palavra. Deve estar ciente da importância do silêncio do encontro com a presença do outro, com a terra originária (como no exemplo da cratera) para além da funcionalidade. É isso que possibilita a experiência de descanso para o ser humano. Ver o mundo como ele é e não vestido de asfalto e de significados.

Safra diz que indivíduos aprisionados em lucidez medonha, não podem dormir e nem acordar, vivem em contínuo estado de agonia, que pode levá-los a uma organização defensiva de tipo psicótica. Muitas dessas pessoas sentem-se tão sós, que se sentem fora da experiência de pertencer à humanidade. Acolher o silêncio do paciente, sem excesso de interpretação, é a saída. É mostrar para aquele ser, cheio de medidas e mais lúcido do que deveria, que o mundo é mistério e, por consequência, sua própria existência também é misteriosa.

Safra também diz que outras pessoas que também vivem uma lucidez medonha se organizam em um tipo de funcionamento niilista. Elas precisam continuamente atacar tudo aquilo que é social e isto se transforma em um estilo de vida, mas guardam em si a esperança de um encontro que as retire de um mundo organizado por artifícios. Elas buscam o silêncio.

Por tudo isso, para Safra, a posição diante do analisando deve ser mais ética do que técnica. O lugar ético do psicanalista demanda o enraizamento de si e da situação clínica no silêncio, que possibilite que o analista possa ser presença e objeto para o analisando. Especialmente para aqueles que foram capturados pela mentalidade hegemônica do mundo, na qual observamos a ênfase na funcionalidade, na hiper-realidade, no excesso de palavras vazias.

Em resumo, nesta conferência Safra nos fala sobre o silêncio como fundamento para gerar o encontro do paciente consigo mesmo e, por consequência, com o analista como presença e objeto. O analisando fala de suas experiências conscientes, o analista ao invés de interpretar tudo, tem um dever ético de respeitar o silêncio do paciente, pois é isso que ditará o ritmo da análise e mostrará ao analisando seu mundo interno, aquele que não possui palavras que o representem.

PARA LER A CONFERÊNCIA CLIQUE AQUI

PARA CONHECE O INSTITUTO DE GILBERTO SAFRA CLIQUE AQUI

 

Crise de Meia Idade – Encontrando a saída – Parte 5 – Final

setembro 6, 2010 às 10:00 am | Publicado em Artigos | Deixe um comentário
Tags: ,

Encontrando a saída

Entenda porque a crise de meia idade masculina é descrita por psicoterapeutas e médicos como um dos mais desestruturantes processos experimentados por um homem

Parte 5 – Final

Fernando Savaglia

Mas todos os homens estariam fadados a enfrentar a crise de maneira turbulenta? “Acredito que alguns homens não apresentam os sintomas, mas internamente este rearranjo é inevitável”, opina Peixoto.

Já Luvizotto acredita que os grandes conflitos que acometem muitos homens no período são causados pela falta de preparo ao longo da existência para o encontro consigo mesmo na segunda metade da vida, ressaltando que cada caso deve ser analisado de maneira particular. O analista junguiano faz uso de  uma analogia para explicar seu ponto de vista; “podemos imaginar a primeira etapa como se estivéssemos subindo uma montanha e a segunda, como se estivéssemos descendo. Alguns subiram de costas, fixados em algo e com a tendência de descer se agarrando e resistindo ao processo. Há alguns, porém, que vão se agarrar de tal maneira que nunca vão descer. Estes  são os indivíduos que têm o desejo de nunca se tornar adultos”.

Já na visão do psicanalista Eduardo Moreira, alguns homens não passam pelo processo, da mesma forma que existem muitas crianças que não vão para a função de sujeito. “O sujeito é aquele que não precisa mais ser interpretado. Ele interpreta.  Conheço homens com 60 anos que continuam no ideal do pai ou da mãe”. Para o terapeuta, o desenvolvimento do homem se dá no plano simbólico e, como tal, não há garantia do que vai acontecer. “A  metanóia ativa a pulsão de morte e você inicia o processo tentando não vivê-lo. Essa paixão que descrevemos como a que geralmente desencadeia a crise é, antes de tudo,  um investimento na não aceitação da falta”.

Todos os entrevistados para esta matéria foram unânimes em afirmar que a crise, seja ela aguda ou não, requer uma mudança estrutural e de significados na própria vida, o que pode levar o individuo a lidar com seus processos psíquicos de uma maneira muito mais sábia.

“Não podemos tratar o processo como neurose, mas como uma voz da essência. É preciso alinhar o sujeito com ele mesmo para que ele consiga ir na direção que necessita na vida, trabalhando a perda, o desligamento do imaginário familiar do qual ele está se divorciando”, opina Moreira. O psicanalista aponta ainda um ponto crucial na terapia dos indivíduos que enfrentam a crise: “eu diria que a ‘metástase’ da metanóia é à volta ao passado. É fundamental se trabalhar a libertação da pessoa em relação ao passado. Podemos comparar essa crise como uma febre que não se deve diminuir. É obvio que não podemos deixar a febre matar o paciente, porém, é ela que vai tornar o ambiente inóspito ao vírus, que no caso é justamente o passado”.

Carl Gustav Jung usava o termo sacrifício para designar a renúncia de uma atitude psicológica em prol de uma com um significado mais profundo e abrangente. O processo, por vezes muito sofrido, imposto pela metanóia daria, segundo a visão do médico suíço, frutos que levariam o homem rumo a sua completude.  “A metanóia pode desencadear uma crise muito benéfica. É possível se passar pelo processo de uma maneira mais criativa, possibilitando assim a passagem para a segunda metade da vida com uma bagagem muito positiva”, ressalta Luvizotto .

Também na visão de Moreira a superação da crise reserva ao indivíduo uma sensação de conquista. “É comum, após a crise passar, você se sentir muito mais alinhado com você mesmo. Por mais sofrida que seja, essa crise pode te levar para o lugar em que você deveria estar. É um processo necessário e eu diria que passar por ele é um privilégio”.


A crise masculina na literatura…

  • Fausto – Goethe
  • Quando Nietzsche Chorou – Irvin D. Yalom
  • Alta Fidelidade – Nick Hornby
  • Lolita – Vladimir Nabokov

…e no cinema

  • Lolita – 1962
  • Beleza Americana – 1999
  • Alta Fidelidade – 2000
  • Alguém Tem Que Ceder – 2003
  • Jornada da Alma – 2003
  • O Gatão da meia idade– 2006

Para saber mais…

  • Metanoia e Meia Idade – Dulcinéa da Mata Ribeiro Monteiro
  • Homem – A chave do entendimento dos três níveis da consciência masculina – Robert A. Johnson


“O grande impasse do desenvolvimento psicológico é a fixação”.

José Marcio Luvizotto – analista junguiano.

“A sensação é a de que quando eu descobri as respostas, a vida mudou as perguntas”.

Eduardo Albano Moreira – psicanalista


Crise de Meia Idade – Projeção – Parte 4

setembro 5, 2010 às 8:30 am | Publicado em Artigos | 1 Comentário
Tags: , ,

Projeção

Entenda porque a crise de meia idade masculina é descrita por psicoterapeutas e médicos como um dos mais desestruturantes processos experimentados por um homem

Parte 4

Fernando Savaglia

Jung descrevia a projeção como um elemento presente ao desenvolvimento psíquico de todas as pessoas. A maneira como ela se dá na metanóia é explicada por Luvizotto: “ao projetar na mulher por quem está apaixonado, o homem busca na verdade um contato com seu mundo interior. Posteriormente ela passa a ser uma função de relação e aí não existe mais a necessidade da projeção. Ao reintrojetar, percebe que o que estava atribuindo a ela na verdade era seu”. Para o analista, é só a partir daí que o sujeito vai ter condição de dimensionar o que realmente sente pela pessoa. Luvizotto gosta de citar a frase de uma antiga canção gravada por Milton Nascimento que ilustra o processo: “onde estará a rainha que a lucidez escondeu?”.

A opinião é corroborada pelo médico e psicoterapeuta Eduardo Peixoto. “Essa paixão nada mais é do que estender para o outro este feminino que floresce dentro de si. Existe uma ilusão de que é possível lidar com esta porção feminina externamente”.

A já falecida psiquiatra Nise da Silveira, aluna de Jung e um dos nomes mais importantes da psicologia analítica no Brasil, ao escrever sobre o tema no livro Jung – Vida e Obra ressaltou o desamparo sofrido pelo individuo ao confrontar sua anima, “o homem esperará que a mulher amada assuma o papel de mãe, o que leva a modos de comportamento e a exigências pueris gravemente perturbadoras das relações entre os dois”. Não é raro a situação tomar contornos mais dramáticos e confusos, como opina Peixoto, “principalmente se a mulher em questão  está buscando no homem mais velho a figura de um pai”.

É comum se constatar que durante a metanóia muitos homens que se acreditavam donos de grande autoconfiança em relação aos jogos de sedução se desestruturam a ponto de terem avassaladoras crises de ciúmes motivadas pela ansiedade instaurada. O psicanalista argentino J. D. Nazio,  em uma de suas mais interessantes obras, O Livro da Dor e do Amor ,descreve assim o que seria o momento mais agudo da dor da paixão: “veremos a dor aparecer como um afeto não tanto provocado pela perda do ser amado, mas sim pela autopercepção que o eu tem do tumulto interno desencadeado por essa perda”.

Para Moreira, a estrutura triangular presente no complexo de Édipo descrito por Freud tem um papel fundamental durante o processo, “o triangulo acontece quando existe um desinvestimento por parte do objeto em você. No início da relação você está num ego ideal, você se sente fálico e poderoso, daí se apaixona e depois triangula e, às vezes, não só com a pessoa, mas com o mundo dessa mulher mais jovem. Provavelmente, vai sentir muito ciúme”. O analista ressalta  o quão desgastante pode se tornar a crise, tanto no aspecto físico como mental: “às vezes, estamos lidando com o limite do funcional. Devido à enorme ansiedade despertada pelo processo, o ramo simpático fica ligado o tempo todo, o metabolismo vai a mil. É comum o sujeito se sentir exaurido”.

Crise de Meia Idade – Castração e anima – Parte 3

setembro 4, 2010 às 2:18 am | Publicado em Artigos | Deixe um comentário
Tags: , , ,

Castração e anima

Entenda porque a crise de meia idade masculina é descrita por psicoterapeutas e médicos como um dos mais desestruturantes processos experimentados por um homem

Parte 3

Fernando Savaglia

O psicanalista Eduardo Albano Moreira compara a crise de meia idade masculina como um segundo sair de casa, considerando a expressão “sair de casa” como uma metáfora para a ação do homem no mundo. “A primeira saída de casa se dá muito influenciada pelo desejo ou oposição aos pais por volta dos 20 anos e é uma separação apenas parcial”, opina.

Para o terapeuta, a crise se inicia quando o indivíduo busca um caminho em direção à posição de sujeito, isto é, passando a atuar no universal, deixando o particular da família. “Este processo nada mais é do que a inevitabilidade de se desligar do que é particular e confortável. É a aceitação da falta, entendendo que nenhum objeto passível de investimento vai estar sujeito a um investimento total como você foi pelo seu pai e pela sua mãe. Isto é a castração”.

Para Moreira, o que torna o processo mais doloroso é que o confronto com a crise se dá sem o homem poder utilizar suas ferramentas de ação no mundo, conquistadas até então “A sensação é a de que quando eu descobri as respostas, a vida mudou as perguntas”, sintetiza.

O analista ressalta ainda outro aspecto sofrido que muitos homens experimentam durante o processo: a paixão quase sempre obsessiva por uma mulher mais nova. “Esse encantamento, que às vezes desencadeia a crise, é antes de tudo um investimento na não aceitação da falta. Mais que uma paixão, o indivíduo vai buscar uma promessa de acolhimento similar à função materna. O problema é que naquele momento ele se sente desprovido de seu falo simbólico e, portanto, insuficiente e não merecedor daquele amor. A sensação é de total desamparo”, explica.

Para Jung, essa paixão avassaladora durante a metanóia é resultado da projeção de anima, o arquétipo que representa a feminilidade inconsciente presente em toda psique masculina. A percepção da anima tende a se intensificar justamente no período que marca a metade da vida do homem, possibilitando assim integrá-la, resultando na completude do ser, processo este denominado pelo psiquiatra suíço como individuação.

Existem indícios que o próprio Jung tenha experimentado durante sua metanóia uma ardente paixão por Sabina Spielrein, uma de suas pacientes, não por coincidência vários anos mais jovem que ele.

Próxima Página »

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.