Análise: A Po-ética na Clínica Contemporânea (Gilberto Safra) II

junho 3, 2011 às 7:17 pm | Publicado em Análise | Deixe um comentário
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ANTES DE LER ESSE TEXTO, LEIA AQUI A PARTE I

O escritor Fiódor Dostoiévski, um dos pensadores que inspiraram Gilberto Safra a construir sua obra

INTRODUÇÃO – PARTE 2

Na segunda parte da introdução, para explicar como se baseou para escrever sua obra, Safra fala sobre a importância dos filósofos, escritores e pensadores russos do século XIX, que tinham como objeto de trabalho a ética humana e os sofrimentos decorrentes de seu esfacelamento. O autor considera que temos muito a aprender com esse pensamento russo, já que em nossa época parece ocorrer quebra semelhante do ethos humano (ethos, do grego, significa valores, ética, hábitos e harmonia). Na clínica, o terapeuta é informado, por meio do sofrimento de seus pacientes, desse mal-estar que acomete nosso tempo.

Safra destaca a paixão do povo russo pela filosofia e de como as questões da existência humana fazem parte do dia-a-dia desse povo. Para exemplificar de onde isso surge, cita as aldeias chamadas de mir, que ocupavam o solo russo em uma época antiga. Mir significava, ao mesmo tempo, povoado, mundo e paz. Tratava-se de uma vida comunitária, a vida de um dependia intrinsecamente da vida dos outros.  Por ser uma comunidade rural, a ligação desse povo com a terra era extremamente fundamental. Por isso, para esse povo, era impossível de pensar no ser humano sem o enraizamento na terra, sem considerar a importância do trabalho que a transforma e faz surgir as coisas e sem a convivência com outros seres humanos. Isso tudo forma o ethos humano, que possibilita mir: mundo, paz, aldeia, comunidade.

Outro fator fundamental da unidade russa foi a escolha da religião que seria oficialmente adotada. Segundo a tradição, o Príncipe Vladimir enviou diversos emissários que viajaram com o propósito de encontrar a religião verdadeira que seria adotada na Rússia. Retornaram e descreveram o que viram. A escolha pelo Cristianismo teve o seguinte argumento: eles haviam presenciado diversos cultos religiosos, mas nenhum podia ser comparado com a liturgia na Catedral de Santa Sofia, em Constantinopla (atual Istambul). Segundo eles, a beleza ali era de tal ordem que Deus deveria estar lá. O critério da verdade religiosa, portanto, foi a beleza. E isso ficou impregnado no pensamento russo, e aparece em Dostoievski quando ele afirma que “a beleza salvará o mundo”. Segundo Safra, a beleza, a verdade e o bom são, para o pensamento russo, facetas de um mesmo acontecimento e integram o ethos.

Um olhar para a condição humana

Outro fator histórico fundamental para a criação da tradição russa ocorreu mais tarde, com Pedro, o Grande. Ele considerava a Rússia isolada da cultura europeia e desenvolveu um projeto de abertura de fronteiras. Isso ocorreu com a construção de São Petersburgo. Diante disso, o pensamento russo se dividiu em dois: o eslavofílico e a inteligentsia. Os primeiros eram nacionalistas que queriam preservar a cultura russa da invasão estrangeira e viam o país como salvador do mundo. Já os segundos acolhiam as ideias ocidentais e ansiavam pela queda do Império e a construção de uma nova nação. Iniciavam, assim, a importação do marxismo.

Os autores que Gilberto Safra se apóia neste livro são da inteligentsia, pensadores que estavam preocupados com a questão social e política da Rússia, mas que, conforme a revolução se formatava, ficavam desencantados e desistiam de algumas ideologias para pensar mais sobre a condição humana em si. Exemplos são Fiódor Dostoiévski, Lev Tolstoi, Vladimir Solovyov, Nikolai Fedorov, Pavel Florenski, Nikolai Berdaiev, Sergei Bulgakov, entre outros. Esse pensamento russo ficou conhecido como Idade da Prata e serve como referência para a obra de Gilberto Safra, que explica porque eles são tão fundamentais para entendermos nosso tempo:

Esses autores testemunhavam o esfacelamento cultural que ocorria na Rússia no final do século XIX e no início do século XX e o decorrente adoecer humano. É frequente encontrar em seus escritos a preocupação com o futuro da humanidade, pela condições anti-humanas que pareciam intensificar-se com o passar dos anos. Nos textos desses autores são discutidas essas questões presentes não só na Rússia do início do século XX, como também, em tom profético, os problemas de nosso tempo, em que a natureza humana se estilhaça”

Segundo Safra, a obra desses pensadores recolhe e emoldura a face humana, explicitando o ethos. Eles evitam abstrações racionalistas e criam uma obra resistente à fragmentação da medida humana. Discutem o registro ontológico, existencial do ser humano. Por isso, seus escritos são eternos.

 O excesso de razão adoece o homem

De acordo com Safra, o estudo desses autores foi fundamental para que ele enxergasse o sofrimento humano com uma profundidade que ele desconhecia. Para ele, os pacientes que o procuram na atualidade apresentam um tipo de sofrimento que demanda uma modificação na maneira como se conduz o processo terapêutico. Ele explica:

 “Cada vez mais nos deparamos na clínica com um tipo de problemática humana que nos coloca, como foco e com urgência, o restabelecimento do ethos, o que nos leva ao estabelecimento de uma situação que possibilite o acontecer da condição humana a partir da compreensão daquilo que é ontológico no ser humano. É uma clínica que exige que o profissional possa estar situado no registro ético-ontológico, a fim de que possa ouvir a dor de seu paciente no registro de seu aparecimento”

De acordo com Safra, esse lugar é necessário para que o psicanalista situe-se à frente das queixas de seu paciente, mas sem reduzi-las ao já conhecido, ao simplesmente psíquico. Sem tentar teorizá-las ou apresentar receitas prontas e mágicas. Para o autor, na atualidade, em decorrência da fragmentação do ethos, o tipo de sofrimento da clínica não é apenas decorrente de uma dinâmica psíquica, mas de situações que reclamam a necessidade da constituição do si mesmo e da constituição do psíquico e o re-estabelecimento da ética na situação analítica. Ao ouvir seus pacientes, Safra constatou o mesmo sofrimento dos pensadores russos do século XIX.

“Muitos de nossos pacientes sofrem pelo desenraizamento, pelo fato de terem sido coisificados, reduzidos a ideias ou abstrações. Na atualidade, encontramos pessoas que são filhos da técnica e que sofrem da agonia do totalmente pensável”

Para Safra, os pensadores russos já alertavam para a impossibilidade de reduzir o ser humano em teorias, pois ele jamais poderá ser plenamente revelado ou explicado. Trata-se de uma questão ética, pois tentar enquadrar o ser humano em comportamentos padrões pode adoecê-lo profundamente, criando uma lucidez insuportável, um excesso de claridade. A condição humana acontece no enigmático, no obscuro, no indizível, no mistério. Portanto, analista em dúvida é analista ético. Safra explica sobre o perigo do totalmente pensado:

“Desde o racionalismo, o projeto intelectual do Ocidente tem sido teorizar sobre o ser humano, suspendendo sua condição enigmática e reduzindo-o a uma ideia, uma coisa, a um objeto, a um conceito. No entanto, frente a qualquer tentativa de apreensão intelectual, o homem é um ser que por sua própria natureza desconstrói qualquer formulação racional ou teórica. Compreender o homem através de qualquer conceito universal, seja o econômico, a sexualidade, ou a vontade de poder, é compreendê-lo por meio de uma abstração que o adoece e que instaura uma situação de barbárie silenciosa e imperceptível, que na maior parte das vezes só será compreendida em sua magnitude após muito tempo, quando seus efeitos já forem inegáveis”

A psicanálise está adoecida

Safra explica que essa tentativa de explicar o fenômeno humano cria a chamada hiper-realidade. Trata-se da criação de falsas realidades ou simulacros, que passam a determinar e organizar o viver humano. Toda hiper-realidade constitui o falso e o aparente, o que leva o ser humano ao desenraizamento de seu ethos. M. Epstein, em seu livro After The Future, afirma:

“A inteira vida da sociedade torna-se uma auto-apresentação vazia. Nem partidos políticos ou empresas são realmente criados, mas sim conceitos de partidos e empresas. Incidentalmente, a área mais real, a econômica, é até mais simulada do que todas as outras”

A criação dessas hiper-realidades, segundo Safra, propicia o aparecimento de falsos-selfs, personalidades simulacros, entre outras. No lugar do rosto, instaura-se a máscara.

“O rosto apresenta o mistério, enquanto a máscara, a objetificação. O rosto assinala que o homem nasce como uma indagação, que se desdobra ao longo da vida e que jamais é respondida. Ser indagação é acordar surpreendido pelo destino humano. O mistério coloca-se frente ao homem, com as questões do nascer, do outro, do convívio entre outros, da geração, da precariedade da vida, da morte e da pergunta que sempre se renova”

Na clínica contemporânea, constata Safra, as pessoas chegam para análise em desespero profundo por não encontrarem o rosto em si e no outro. Vivem como máscara entre máscaras e, no momento que a retiram, há um nada. Frente ao outro se perguntam: há alguém atrás dessa máscara? Essas são as agonias que testemunham as hiper-realidades. Esses pacientes clamam pela possibilidade de vir a formular as questões do destino humano. De acordo com o psicanalista, elas vivem na agonia do terrível, aspirando pelo sofrimento. Uma coisa é a agonia do não-ser. Outra é a oportunidade de sofrer em decorrência dos acontecimentos inerentes ao destino humano. Sofre apenas aquele que se apresenta rosto frente a outros rostos. Quem está de máscara apenas agoniza.

Por fim, para fechar a Introdução e seu pensamento, Safra afirma, com preocupação, que a própria psicanálise está adoecida, pois na maior parte das vezes está assentada sobre hiper-realidades. É preciso rever a atividade clínica, que deve estar ancorada no mistério e posicionada sobre o ethos humano. Safra, no fundo, propõe um aprofundamento ligado à frase dita por Freud: “Aonde quer que eu vá, eu descubro que um poeta esteve lá antes de mim”. É na subjetividade poética que o mistério da condição humana é celebrado. Safra, por isso mesmo, fecha o capítulo com um poema de Mário de Andrade que resume um pouco a condição humana:

 Esse homem que vai sozinho

Por estas praças, por estas ruas,

Tem consigo um segredo enorme

É um homem

 

Essa mulher igual às outras

Por estas ruas, por estas praças,

Traz uma surpresa cruel,

É uma mulher

 

A mulher encontra o homem

Fazem ar de riso, e trocam de mão,

A surpresa e o segredo aumentam.

Violentos.

 

Mas a sombra do insofrido

Guarda o mistério da escuridão.

A morte ronda com sua foice.

Em verdade, és noite.

 

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