Análise: A Po-ética na Clínica Contemporânea (Gilberto Safra)

maio 30, 2011 às 2:35 pm | Publicado em Análise | 5 Comentários

Iniciamos neste espaço uma análise de livros sobre psicanálise. O primeiro escolhido é o terceiro livro do psicanalista Gilberto Safra, uma das obras mais impressionantes da atualidade. Safra é um pensador que domina a psicologia, a psicanálise, a filosofia e apresenta uma forte influência da literatura. Neste livro ele propõe uma nova visão da clínica contemporânea, mais do que necessária para a complexidade dos pacientes dos tempos de hoje. Analisaremos o livro capítulo por capítulo. Hoje começamos a Introdução, importante para entender a ideia geral do pensador. No início da próxima semana pretendemos colocar a parte dois dessa Introdução.

INTRODUÇÃO – Parte 1

“A aparência se adere ao Ser, somente a dor pode arrancá-lo da aparência. Os opostos não são o prazer e a dor, mas sim suas respectivas espécies. Existe um prazer e uma dor infernais, um prazer e uma dor curativos, prazer e dor celestes”, Simone Weil, em Cuadenos

Safra inicia o livro contando a história de Mário, um garoto de quatro anos que se sentia desalojado do mundo, distante dos amigos e impossibilitado de brincar. A mãe, percebendo a situação, decide levá-lo a um analista. O terapeuta em questão guardava em sua sala brinquedos e materiais para as crianças que atendia. Mário, logo que chegou, pegou uma bacia cheia de água, jogou nela um soldadinho de plástico e, mexendo com um lápis, formou um redemoinho. Um redemoinho de angústia. Olhou de forma dolorosa para o terapeuta e, com voz sussurrante e longínqua, gritou: “Socorro, Socorro”. Surpreso, o profissional logo percebeu que apenas testemunhar tal dor não era suficiente: era necessário agir.

Com outro soldadinho, o terapeuta chegou à beira da bacia com o intuito de alcançar o soldadinho do menino. Mário, no entanto, pegou o soldadinho do terapeuta e o jogou dentro do redemoinho. O terapeuta entrou na fantasia e também gritou: “Socorro, Socorro”. Os dois soldadinhos giravam no mesmo redemoinho de angústia. Mário pensou um pouco e pegou um terceiro soldadinho e um pedaço de madeira. Foi ao encalço do soldadinho dele e do soldadinho do terapeuta. A madeira se transformou em balsa. Safra explica: “Esse menino desvelava com seu terapeuta o que necessitava, o que precisava ser estabelecido para que uma viagem pela existência fosse possível. Nascer? Só com uma balsa. Ele mostrava com precisão as dimensões de seu sofrimento e a maneira pela qual o outro podia ir a seu encontro para auxiliá-lo a atravessar o impasse no qual se encontrava”.

Angústia é conhecimento instintivo

Para Safra, situações como essa surgem diariamente no trabalho clínico. Muitos pacientes, independente da idade, demonstram um conhecimento de si que parece brotar da angústia mesma, que revela as dimensões do sofrimento e da fragilidade humana. Esse conhecimento não é aprendido, ele ocorre pelo próprio fato do ser humano ser jogado em meio à existência na busca de condições que possibilitem seu alojamento – mesmo que precário – no mundo com os outros.  Em sua solidão essencial, o ser humano precisa ser acolhido no abraço e no olhar de alguém para que um iniciar-se aconteça. É aí que existe a possibilidade de vir a ser. O homem, portanto, vive sempre na fronteira entre o ser e o não ser. Safra explica:

“O homem se encontra na fragilidade do entre: entre o dito e o indizível, entre o desvelar e o ocultar, entre o singular e o múltiplo, entre o encontro e a solidão, entre o claro e o escuro, entre o finito e o infinito, entre o viver e o morrer”.

Para Safra, é pela fala que o ser humano pode desvelar quem ele é e o que vive. O dizer ao revelar também vela, pois o viver humano não pode ser plenamente dito; entre o dizer e o indizível emerge o falar poético.  Na clínica, o terapeuta testemunha esse falar em que a palavra não se fecha, mas se abre para o não dito.

Mistério é liberdade

Na análise, sentimo-nos desnudados, mas é importante que a visibilidade ali não seja exercida de modo que se perca o mistério e o segredo sobre o que é o ser. Um olhar fechado – onisciente e aprisionante – deve estar longe da clínica. É preciso respeitar os mistérios do existir. O paciente deve ser encontrado e não devorado. Para Safra, é preciso encontrar um meio termo, um “entre” nessa situação. Safra, de maneira brilhante, explica sobre a agonia do totalmente indizível e também do totalmente pensado:

“A queda plena no indizível, no oculto, na solidão, no escuro, leva o individuo às agonias impensáveis, ao sofrimento sem morte, ao fora absoluto que o torna andarilho sem sombra. Por outro lado, o deslizamento para o dito, para o desvelamento, para o mundo, para o claro, leva-o ao encarceramento na imanência e à morte da coisa. É a agonia do totalmente pensado”

Safra exemplifica isso com uma criança de cinco anos que ele atendia. Em um diálogo sobre o medo, a paciente, instintivamente, formulou uma das grandes questões humanas:

– Eu tenho medo de ladrão, de fantasma e da morte dos meus pais. – ela disse.

– Mas qual é o seu maior medo? – perguntou o analista.

– Meu maior medo é entrar no quarto escuro e lá pode ter um ladrão escondido.

Um tempo de reflexão e ela volta atrás:

– Não, não é isso… O ladrão fui eu que inventei, eu tenho medo puro… É mais fácil ter medo do ladrão do que ter medo puro.

O medo da menina era a queda no escuro, a queda no nada…

Pulsão X Ontologia

De acordo com Safra, a impossibilidade do acontecer humano – seja pelo excesso de claridade ou de escuridão – leva o individuo a um sofrimento enlouquecedor. Não se trata, portanto, apenas de um problema psíquico ou de um conflito pulsional, mas algo que se refere à própria ontologia do existir humano. O encontro com a balsa, descrito no início desse texto, possibilita habitar o mundo, pois existe outro para lhe auxiliar na caminhada. Isso possibilita um conhecimento sobre a ética do ser, que não é aprendida, mas se constrói na relação com o outro. É preciso ter elementos para morar no mundo entre os outros. É preciso construir uma ética para tanto.

A quebra da possibilidade da construção desses elementos leva a um sofrimento que – apesar de alcançar o registro psíquico – não tem origem no psíquico. São os sofrimentos que acontecem no registro ontológico, no próprio existir. A clínica, portanto, caracteriza-se pelo cuidado que permite estabelecer as condições necessárias ao acontecer humano. A clínica é ética. Safra estabelece assim uma preocupação com a técnica em detrimento dessa ética:

“Nessa perspectiva, cai por terra toda concepção que busca definir a situação clínica a partir de procedimentos técnicos. A técnica, assim compreendida, joga o paciente em direção ao conceituável, roubando-lhe o indizível e os mistérios de seu ser. Esse é o homem-coisa e não mais ser, não mais presença”.

O cuidado ético citado por Safra, que permite o surgir do si mesmo no paciente, é reconhecido por uma experiência de qualidade estética, de encanto, de júbilo, de sagrado. A ética se desvela como beleza, como presença de si e do outro. O individuo que está no mundo dispõe de um olhar ético que lhe permite reconhecer as condições inóspitas para o ser humano por um conhecimento decorrente da maneira como aconteceu sua entrada no mundo.  As condições necessárias ao acontecer e à presença humana estão ligadas com essa ética. Para Safra, é preciso uma crítica às situações do nosso tempo para com essa ética do ser para possibilitar que o homem se situe no mundo e tenha condições de vir a ser. A clínica, que é a própria ética representada, deve ajudar a construir essa possibilidade.

EM BREVE, PARTE 2

Sugiro o contato com o pensamento de Gilberto Safra. VEJA O SITE DELE AQUI.

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5 Comentários »

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  1. Prezados boa tarde.

    Parabéns pelo maravilhoso o artigo:
    Análise: A Po-ética na Clínica Contemporânea (Gilberto Safra)
    maio 30, 2011 às 2:35 pm | Publicado em Análise |

    Abraços
    Andréa Fioravante
    (Psicóloga Clínica, Organizacional e Pedagógica)

  2. […] ANTES DE LER ESSE TEXTO, LEIA AQUI A PARTE I O escritor Fiódor Dostoiévski, um dos pensadores que inspiraram Gilberto Safra a construir sua obra […]

  3. […] ANTES DE LER ESSE TEXTO, LEIA AQUI A PARTE I O escritor Fiódor Dostoiévski, um dos pensadores que inspiraram Gilberto Safra a construir sua obra […]

  4. Parabéns pelo texto vívido que brada por uma psicanálise viva, pulsante e evolutiva.

  5. Texto muito claro , primoroso ; pretendo adquirir os livros deste autor… para uma análise coerente e consciente


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