Sándor Ferenczi: um visionário nos tempos de Freud

novembro 25, 2010 às 2:20 pm | Publicado em Curso | Deixe um comentário
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por André Toso

Que Freud foi um visionário, poucos duvidam. Em uma época de conservadorismo extremo, em que o homem se achava dono de sua própria razão, o psquiatra andava na contramão da comunidade médica e criou uma teoria que mudaria a concepção do ser humano sobre si mesmo. Apesar de toda sua genialidade, é inegável que Freud se prendia, até inconscientemente, nos costumes e preconceitos de sua época. Viena era uma cidade absolutamente conservadora, onde a aparência e a postura de ser perfeito eram requisitos básicos para ser aceito.

Apesar de Freud analisar a fundo as podridões que revestiam essa sociedade aparentemente irretocável, ele ainda apresentava pontos conservadores em sua técnica, em sua teoria e até mesmo em suas opiniões sobre as mulheres, por exmeplo. Mesmo muito a frente do seu tempo, tornando-se amigo de mulheres libertárias e defendendo timidamente a homossexualidade como algo natural, Freud ainda considerava, no fundo, a mulher como um apêndice do homem. Para ele, a inveja do pênis era a principal causa da histeria em suas contemporâneas. Seu pensamento não estava totalmente equivocado, mas ele não enxergou o que um de seus parceiros enxergou. Sándor Ferenczi (1873-1933), psiquiatra e psicanalista húngaro, foi tão visionário que suas ideias eram consideradas malucas e ele chegou a ser taxado de psicótico no final da vida.

Um exemplo da postura moderna para a época era sua opinião sobre a histeria. Para Ferenczi, as mulheres vienenses apresentavam histeria pelo fato de elas serem muito reprimidas e não terem condições de dar vazão aos seus desejos sexuais e suas opiniões. De fato, ao olhar de hoje, fica claro que, mais do que inveja do falo, as moças daquele período sofriam com a subserviência e a cabeça baixa em relação aos maridos e era isso, principalmente, que as levava aos sintomas histéricos.

Mas o que mais chama atenção na trajetória de Ferenczi era sua cabeça aberta para o atendimento clínico. Enquanto Freud e seus seguidores pregavam a interpretação e a neutralidade, o húngaro já falava, sem teorizar sobre o tema, sobre vínculos com o paciente, sobre trocas e sobre humanizar a clínica. Ele percebia, mais cedo que todos, que a constratransferência era fundamental para o tratamento e que era impossível um não envolvimento por parte do psicanalista.  Outro aspecto é a regressão clínica, ou seja: o objetivo de fazer o paciente regredir para entender suas emoções mais primitivas.

Poucos sabem, mas a escola kleiniana deve muito a Ferenzi. O médico húngaro plantou as primeiras sementes das relações objetais e foi ele quem introduziu o termo introjeção. Ao atender Melanie Klein, deu a ela as ferramentas necessárias para iniciar uma teoria que modernizaria a psicanálise e possibilitaria o atendimento de pacientes regredidos e não apenas dos neuróticos clássicos de Freud.  Sua defesa ferrenha do homessualismo e seu interesse pela figura feminina complementam uma visão de mundo muito a frente de seu tempo. Chega a ser assustadora sua genialidade, por adiantar, durante uma época conservadora e absolutamente preconceituosa, conceitos que seriam discutidos abertamente apenas depois da revolução comportamental e sexual de 1960.

Como resultado de sua genialidade, porém, ganhou muitos desafetos e críticas. Mesmo sendo o criador da International Psychoanalytical Association (IPA), Ferenczi, no final de sua vida, sofreu com o preconceito por suas ideias fora do lugar. Morreu sendo acusado por Ernest Jones (1879-1958) de ser um psicótico, mas tempos depois ficaria provado que seus surtos de loucura foram ocasionados por um problema físico, pois sofria de anemia perniciosa. Como todo gênio, Ferenczi é revisitado nos dias atuais e suas ideias inovadoras são fundamentais para a psicanálise contemporânea. Ele é a prova viva de que a ignorância persiste, mas um dia começa a ruir naturalmente.

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