Adoção por casais com filhos biológicos exige mais atenção

outubro 27, 2010 às 3:34 pm | Publicado em Notícias | Deixe um comentário
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Do Portal Psique / Agência USP

A experiência de pais que já têm filhos biológicos e partem para a adoção, analisada em pesquisa da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, é caracterizada por intensa carga emocional, sendo permeada por afetos ambivalentes, alternando alegrias e tristezas, conquistas e dificuldades, temores e confiança. O estudo recomenda que os profissionais da área de psicologia sensibilizem-se no que diz respeito aos interesses de todos os membros do grupo familiar, inclusive os filhos biológicos, tendo em mente a Nova Lei da Adoção, em vigor desde 2009.

A pesquisa da psicóloga Lívia Kusumi Otuka investigou a experiência da adoção por casais que já possuíam filhos biológicos, destacando as fantasias conscientes e inconscientes em relação ao processo de adoção, bem como a forma como se constrói a parentalidade adotiva nesses casos, em comparação à biológica. Para alcançar os objetivos propostos, foram entrevistados seis casais. “Eles revelaram que a chegada da criança ao lar trouxe intensas alegrias, bem como preocupações e dificuldades”, diz a pesquisadora.

Lívia afirma que na transição para a parentalidade adotiva, esses desafios puderam ser encarados e superados para a construção do relacionamento afetivo entre pais, filhos e irmãos. “Os filhos biológicos mostraram-se bastante empenhados nos cuidados do irmão adotivo, segundo o relato dos pais”, observa. “Eles parecem, também, ‘adotar’ a nova criança, oferecendo-lhe um espaço no imaginário da família, preocupando-se com a educação e com o provimento de melhores condições, tanto materiais, como afetivas.”

A partir do discurso dos casais, foram identificadas diversas fantasias que permeiam o universo da adoção, já discutidas na literatura científica. Entre elas, a pesquisadora faz referência à fantasia inconsciente de roubo do filho adotivo. “Os pais sentem como se estivessem roubando a criança de seus genitores biológicos, como se a adoção correspondesse, no plano inconsciente, a um ato delitivo. Parece haver, ainda, um temor de que a mãe biológica possa retornar e reivindicar a criança adotiva que lhe foi roubada”.

Ambiente

As entrevistas foram analisadas qualitativamente, a partir da teoria proposta pelo psicanalista inglês Donald Woods Winnicott (1886-1971), que dá ênfase à importância do ambiente para o desenvolvimento da criança. Este autor propõe que, a partir do provimento de um ambiente suficientemente bom, capaz de reconhecer e atender as necessidades do bebê na medida exata, a criança pode desenvolver-se, amadurecer e, de fato, existir no mundo.

Nesse contexto, a pesquisadora considera de vital importância as vivências de cuidados parentais durante a primeira infância, pois elas influenciam o modo como a pessoa irá se desenvolver posteriormente. “Deve-se considerar que futuras dificuldades apresentadas pela criança podem estar relacionadas a experiências bastante antigas, até mesmo anteriores ao processo de adoção. As vivências de abandono precoce podem repercutir posteriormente na forma como ela irá se relacionar com seus pais adotivos, podendo mostrar-se extremamente sensível a qualquer possibilidade de separação”, enfatiza.

Para Lívia, os profissionais envolvidos com a temática da adoção no Brasil precisam facilitar e favorecer condições para a construção de ambientes familiares saudáveis. “São elementos fundamentais para que a família se constitua em um espaço privilegiado de transmissão e construção de valores, saberes, práticas e trocas afetivas, oferecendo um contexto de desenvolvimento tanto para os filhos adotivos, quanto para os demais membros da família.”

A pesquisa faz parte do trabalho de Iniciação Científica Adoção suficientemente boa: experiência de um casal com filhos biológicos, orientada pelos professores  Manoel Antônio dos Santos, da FFCLRP, e Fabio Scorsolini-Comin, da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM). O estudo recebeu a terceira colocação no I Prêmio Recém Formado da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul, destinado a monografias de alunos formados há, no máximo, dois anos, em todo o país. Lívia graduou-se em Psicologia pela FFCLRP no início de 2010.

 

 

 

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