Próxima segunda no fórum: sexualidade feminina

setembro 15, 2011 às 1:18 pm | Publicado em Fórum de Debates | Deixe um comentário
Tags: , , , ,

O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticeli

SEXUALIDADE FEMININA

  No “FÓRUM DE DEBATES” de SETEMBRO

19/09/2011 (segunda-feira) – das 19h às 21h

A Sociedade Paulista de Psicanálise promove mensalmente o “Forum de Debates”, com temas diversos e atuais com o intuito de trazer a tona reflexões sobre questões cotidianas. No debate deste mês, Sexualidade Feminina, o objetivo é identificar:

  • Primórdios das Manifestações da Sexualidade Feminina
  • A Relevância da Relação Pré-Edipiana
  • Os Efeitos da Castração:  03 possíveis consequências
  • Abertura para o Desenvolvimento da Feminilidade;
  • Saída Edípica: Equação Simbólica Pênis-Bebê
  • Leitura Lacaniana do Édipo
  • Lacan: “A Mulher Não Existe”
  • A Maneira Própria de Amar na Mulher
  • O Que quer uma Mulher?

Coordenação: Vera Lucia Muller Ando

Apresentação por Profa. Dra.  ALICE BEATRIZ B. IZIQUE BASTOS:

Doutora em Psicologia da Educação pela Universidade de São Paulo, com formação em Psicanálise pelo Instituto de Pesquisas em Psicanálise (IPP) da Escola Brasileira de Psicanálise. Profa do curso de Pós-Graduação em Psicopedagogia da Universidade Gama Filho e da Universidade Metodista de São Paulo, e autora do livro “A construção da pessoa em Wallon e a constituição do sujeito em Lacan”, publicado pela Editora Vozes, em 2003 e co-autora do livro “Henri Wallon: Psicologia e Educação” publicado editora Loyola, em 2001.

Investimento: R$15,00 para associados e R$30,00 para não associados.

                                          Dirigido ao público em geral

 Inscrições:  antecipadas na secretária com Beth.

De 2ª a 5ª, das 14h30 às 20h30.

Local: Sociedade Paulista de Psicanálise – Rua: Humberto I, 295 – Vila Mariana – Tel.: 5539-6799 – sppsic4@terra.com.br

Inscrições abertas até 16/09/10 Vagas Limitadas

A psicanálise e o esvaziar-se de si

setembro 13, 2011 às 5:31 pm | Publicado em Artigos | 2 Comentários
Tags: , , , , , , , , ,

“A palavra foi dada ao homem para encobrir seu pensamento”, Stendhal

Por André Toso

Entre as inúmeras contribuições da psicanálise para a humanidade, talvez a que mais se destaque é a abertura da possibilidade de escutar o outro. A figura do analista representa um esvaziar-se de si mesmo e abrir-se para as inquietações, conflitos e, fundamentalmente, para o discurso do paciente. Para tanto, é necessário que o analista deixe do lado de fora de seu consultório todas as suas opiniões morais e escute as demandas do paciente sem julgamentos ou concepções pré-definidas. É ouvir o outro em sua inteireza, de forma depurada e sem misturar-se com o que é falado. É ouvir por ouvir, sem a ansiedade de uma resposta que se enquadre em um diálogo. É ouvir sem sequer pensar em construir um diálogo racional. O diálogo se constrói por si mesmo, nas entrelinhas, sensações e naturalidades da fala do paciente. É essa fala do paciente que leva à resposta do analista, como num eco. Não se trata de um diálogo construído: trata-se de um diálogo que simplesmente nasce em si mesmo.

Por isso mesmo, o psicanalista inglês Donald Woods Winnicott (1896-1971) diz que a sessão psicanalítica é um momento sagrado. Sagrado, pois consiste em uma tentativa de encontrar a verdade que não está nas palavras e sim na essência do que é cada ser humano. A verdade que não pertence nem ao analista nem ao paciente. A verdade que pertence à própria experiência humana. Uma verdade intangível, que se estabelece diante da singularidade de cada um e escapa a teorias ou enquadres. Uma verdade que transcende – própria da experiência de cada paciente. Uma verdade que nunca é totalmente revelada, mas pode ao menos ser parcialmente iluminada.

Uma boa análise objetiva libertar o paciente de suas próprias amarras fantasiosas e das amarras do meio social em que ele vive. É libertar o paciente do discurso do Outro – como diria Jacques Lacan (1901-1981) –, do discurso dos pais e mães. Mas esses pais e mães ultrapassam em muito a barreira familiar e não são apenas os biológicos. A psicanálise busca libertar o paciente do discurso do poder, das instituições, tradições, imposições e até mesmo das leis que regem a vida social. É libertar o paciente do discurso inventado pela própria história humana. É desintoxicar a mente do excesso de discurso, do excesso de palavras, do excesso de regras estabelecidas que se estendem ao longo da trajetória humana. O papel da psicanálise é reinventar a experiência humana contestando tudo que até então foi imposto ao sujeito pelo discurso externo. É limpar os signos e símbolos em excesso que sufocam o humano e lhe tiram seu caráter misterioso, subjetivo, essencial e quase místico. A psicanálise trabalha com a palavra narrada para desgastá-la a ponto de ela perder sua importância central e restar apenas a essência. A palavra – que muitas vezes cega – é substituída pelo sentir.

É esse sentir que levará o paciente a criar sua própria ética. Uma ética que não responde a instituições ou regras estabelecidas, mas que ecoa dentro de sua essência. Uma ética que dispensa a obrigação e o apalavrado – que é essência em si mesma. O paciente, ao estar diante de um analista que se esvazia para contê-lo, aprende também a esvaziar-se para conter todos que o cercam na comunidade. Aprende a olhar o outro sem barreiras morais, respeitando as singularidades, experiências e vivências de cada um. Um ser humano analisado aprende a respeitar o espaço de si e do outro, separando o seu querer e poder do querer e poder do outro. Ele aprende a delimitar-se na relação com o outro, respeitando-o e sabendo instintivamente que para construir-se é preciso do outro, mas que esse outro também está ali para construir-se com ele. Esse paciente aprende a olhar a si e ao outro respeitando o mistério da experiência humana. Respeita-se a si, respeita-se o outro e respeita o próprio mistério do existir humano. É um ser que consegue esvaziar-se de si para acolher o outro. É alguém preparado a conviver com unidade e em comunidade.

Patologias do desvalimento: o vazio do não ser

agosto 9, 2011 às 1:51 am | Publicado em Artigos | 2 Comentários
Tags: , , , , , ,

Autor: Olivan Liger

Colaboração: Clarisa Junqueira Coimbra

 Introdução:

Nessa primeira década do século XXI, ao lado de inquestionáveis avanços tecnológicos nas diversas áreas da saúde, a Psicanálise se defronta cada vez mais com um mal-estar cuja incidência nos consultórios aumenta a olhos vistos. Algo novo no seu campo de saber? Não. Porém, o que nos alerta é justamente o número de pacientes com queixa muito similar, e que muitas vezes tem sido diagnosticados com algum equívoco, baseados em critérios duvidosos de co-morbidade, conduzindo a tratamentos inadequados que resultam no abandono do tratamento pelos pacientes que não se sentem atendidos em sua demanda.

Não se trata de uma ocorrência inusitada, pois Freud, em 1926 já citava esse tipo de paciente portador de uma angustia automática e desamparo (Hilflosigkeit). A contemporaneidade e seus impactos contribuem para o surgimento de um número maior dessas pessoas, as quais pertencem a um grupo psicopatológico que denominamos de portadores de patologia do desvalimento, termo este, traduzido do espanhol (desvalimiento) pela editora Amorrortu, e que aparece na atualidade, principalmente nos diversos estudos da UCESUniversidad de Ciências Empresariales y Sociales de Buenos Aires, Argentina.

Os portadores dessa patologia são pacientes que apresentam uma desconexão com a realidade, em diversos níveis. Evidenciam no processo de tratamento psicanalítico um estado mental de desistência e completa desmotivação pela vida, não desejam nada e se acomodam no estado letárgico e monótono de um viver sem aspirações ou expectativas. Um quadro de depressão sem tristeza, neuroses traumáticas e tóxicas, transtornos alimentares ou abuso de substâncias, violência vincular e somatizações diversas. O que o singulariza e diferencia de qualquer outro diagnóstico é exatamente esse traço de um vazio afetivo e emocional como se desabitados de qualquer emoção ou afeto.

Desenvolvimento e conceituação:

Para situarmos a constituição do Sujeito, cabe-nos retomar a textos onde  diversos psicanalistas refletem sobre o desenvolvimento da sexualidade. Freud nos fala de um primeiro momento de vida onde a libido se concentra na região bucal e nas mucosas, estado narcísico por excelência, no qual o recém-nascido não reconhece o outro senão como uma extensão de si próprio.  Nessa fase da vida sob a prevalência do id, processo primário na busca da satisfação dos impulsos, imediata, irrefreável, do prazer a todo custo, aqui e agora. Para que este prazer seja satisfeito, o recém-nascido necessita ver atendidas suas demandas básicas de fome, sede, higiene e cuidados básicos, através dos quais se agregam os afetos- emoções e sentimentos – a contenção e o acolhimento da parte aquele que cuida.

Freud distingue dois tipos de consciência: a consciência oficial e secundaria relacionada ao trabalho interpretativo de tornar consciente o inconsciente e uma consciência anterior, que denominou de consciência originaria ou neuronal, anterior às marcas mnêmicas e as representações, capaz de captar a vitalidade pulsional como fundamento da subjetividade. Portanto, entende-se que a partir desse “sentir o afeto do outro”, ou seja, dessas impressões sensíveis, há um investimento na percepção desinvestida e indiferente na consciência neuronal. A partir dai cria-se a base para o surgimento da consciência secundaria, na qual se inscrevem as marcas mnêmicas.

Para que o Sujeito se constitua, essa consciência neuronal (biológica, das impressões corpóreas) precisa ser suficientemente investida, conter um registro que organiza o mundo sensível de forma diferente, base sobre a qual se dará o desenvolvimento do ego posteriormente.

Quando não há, ou o investimento do afeto é muito precário nessas primeiras semanas de vida, a percepção não investida irá impossibilitar um desenvolvimento saudável da consciência secundaria, ocasionando um enorme vazio afetivo que comprometerá de forma geral todas as etapas de desenvolvimento posteriores, resultando na inibição ou fragmentação do psiquismo. Analogamente, comparo esse fenômeno a uma atrofia dos membros superiores ou inferiores num recém-nascido e suas conseqüências posteriores no agir na vida.

Nesse vazio afetivo instala-se o desamparo, o temor de sucumbir e a identificação com a morte, resultando na angustia automática, somática, dada a falta de uma experiência que a mente não tem registro, fazendo prevalecer o princípio de inércia sobre o princípio de constância fundamental para a manutenção da saúde psíquica.

O princípio de inércia imposto pela pulsão de morte aparece na clínica sob a forma de apatia que faz com que o sujeito se torne insensível à dor e ao sofrimento com traços de caráter marcadamente narcísicos, uma vez que, sua constituição não alcançou o reconhecimento do outro. A pulsão de morte fará o seu trabalho, rompendo ligações entre pulsões, estancando partes da energia psíquica e assim construindo um universo de fragmentos impossibilitado de processar o mundo psíquico na forma do pensamento, como num texto cuja gramática impede a compreensão semântica.

Esse desvio para a estagnação ocorre antes da posição depressiva de Klein, portanto nos primórdios da posição esquizo-paranóide ou durante a fase de autismo normal citada por Mahler antes do período de “diferenciação”, comprometendo as sub-etapas de “separação” e “individuação”. Green criou o termo “mãe morta” para referir-se à mãe que embora presente fisicamente nos cuidados básicos de seu bebê, estava por alguma razão, afetivamente morta:

Uma imago que se constitui na psique da criança em conseqüência de uma depressão materna, transformando brutalmente o objeto vivo, fonte da vitalidade da criança, em figura distante, átona, quase inanimada, impregnando muito fortemente os investimentos de certos sujeitos que temos em análise e pesando sobre o destino de seu futuro libidinal, objetal e narcisista. A mãe morta é, portanto, ao contrario do que se poderia crer, uma mãe que permanece viva, mas que está, por assim dizer, morta psiquicamente aos olhos da pequena criança de quem ela cuida.

 Diferencio aqui a depressão com tristeza e a depressão sem tristeza. Na depressão com tristeza há a perda de um objeto introjetado, o sujeito se identifica com o morto, como no luto, enquanto na depressão sem tristeza, não houve perda do objeto porque este não existiu, impelindo o sujeito a se identificar com a morte, com o nada.

A este objeto frio, a “mãe morta”, Costa acrescenta:

Quando não existe empatia, a figura materna se inscreve na mente da criança como um interlocutor arbitrário que contraria a realidade, sendo ela precisamente uma representação dessa realidade que o objeto procura destituir de vida. Maldavsky denomina esse objeto de “déspota louco”, a cujo domínio absoluto o paciente sucumbe, tornando-se um ser desvitalizado. (p. 62)

  Segundo Evaristo de Carvalho (2008) (apud LIGER, 2010, p. 66):

Dor incomensurável, do nada, sem causa aparente, dor de existir, que se reporta a um vazio que clama em vão por uma palavra que possa simbolizá-la. Dor obscura, sem limites, cujo sentido está velado para aquele que sente. Dor, pesar e desinteresse são características de quem perdeu algo. Mas enquanto para alguns é possível o luto pelo reconhecimento de que o objeto da perda não mais existe, para outros parece que isso é impossível. Por não saberem exatamente o que perderam, caem no mundo obscuro e enigmático da melancolia.

 O seio bom (que nutre e que transmite afeto), aqui o nomeio de seio quente para estabelecer a diferença com o seio frio (que nutre, mas inexiste afetivamente), o qual é sentido pelo recém nascido e introjetado de tal forma a transmitir  e repetir em sua vida uma forma do que Green denominou de “núcleo frio que queima como um gelo” e que Costa infere como a expressão de “um amor gelado, efeito da perda de calor vital resultante de uma hemorragia libidinal”, que se apresenta na relação analítica no processo de transferência.

Zimerman complementa dizendo que diante do “congelamento” da mãe, o recém-nascido pode num primeiro instante protestar através de manhas, choros, gritos e sintomas somáticos, reagindo a aspereza da realidade. Se nada acontece, tende a assumir um estado de acomodação e de “apatia depressiva”. Se, por fim, de nada adiantar, o recém-nascido entra num estado de nada mais esperar do mundo exterior  que se expressa num estado de des-esperança, que será sua marca pela vida afora.

São pessoas que podem manifestar um estado apático ou como reação à apatia, um estado semelhante a mania, cumprem sua vida na constituição de uma família, na manutenção de bons cargos em corporações, contudo toda e qualquer expressão para o mundo exterior costuma ser desqualificada de afeto. Tendem a ser cordiais quando manifestam sua apatia ou agressivos e reativos quando tentam sair do seu estado apático. Muito frequentemente o portador de patologia do desvalimento mergulha na dependência química, na compulsão sexual ou nos transtornos alimentares, meios dos quais se serve na tentativa de preencher o vazio interno e não sucumbir ao terror que o ego sente de ser invadido. Devido a ausência de uma subjetividade constituída na significação afetiva, também encontramos toda sorte de sintomas somáticos em tais pacientes, como forma expressiva dessa ausência, desse vazio que ficou inscrito. Nada parecendo os motivar, vivem sem grandes aspirações e parecem desconectados de tudo a sua volta. No seu processo de vida, nos relacionamentos estabelecidos e em tudo relacionado a vínculos afetivos, há sempre a repetição do desamparo e do abandono.

 Manejo clínico:

 São pacientes de difícil acesso que demandam uma série de habilidades da parte do analista. Segundo Hornstein (2008):

Em seu trabalho com as patologias do desvalimento o psicanalista pode refugiar-se na técnica “clássica” ou pode por a prova sua singularidade e fazer suas opções dentro da diversidade atual da psicanálise. Adeus ao psicanalista “objetivo”, ao receptáculo que recebe as identificações projetivas sem juntar-lhes elementos próprios de sua realidade psíquica por temor a juntar algo de seu próprio repertório. E a neutralidade analítica? O analista é algo mais que o suporte de projeções e de afetos mobilizados pela regressão do paciente. A contratransferência revelará ao analista não só o seu saber como também seus recursos libidinais e relacionais que remetem a sua própria história. Sua subjetividade é uma caixa de ressonância historizante e historizada.

 Prosseguindo nessa linha do pensamento de Hornstein, cabe ao psicanalista atualizar e avaliar algumas questões tais como a relação realidade/fantasia; sistemas abertos/fechados;  séries que se complementam na história linear e recursiva; consistência, fronteiras e valorização do ego; relação verdade material/verdade histórica, assim como, a vivencia real e psíquica desde a infância até a atualidade; a diversidade de dispositivos técnicos que incluem as estratégias e programas. Estes aspectos configuram a trama conceitual que o psicanalista dispõe para aliviar os sofrimentos característicos do desvalimento.

A transferência esperada é referida anteriormente como o “amor gelado” ou afeto sem afeto, desconectado, ou ainda, no dizer de Zimerman, uma transferência natimorta, gerando no psicanalista uma contratransferência de desistência, resultante da identificação do analista com o objeto traumatizante do paciente e sentida como uma relação analítica desanimadora e apática ou contrariamente, uma reação de impaciência, raiva ou intolerância à apatia do paciente, tentando a todo custo retirá-lo de sua passividade. Diante da reação de impaciência do psicanalista, o paciente não será capaz de sentir nada do que lhe é falado, gerando-lhe a sensação de estar sendo invadido e retraindo-se cada vez mais.

Na clínica, a escuta identificará procedimentos discursivos que buscam evitar a intrusão da interpretação ou intervenção do analista. Prendem-se a um discurso inconsistente ou sobre adaptado dificultando ao psicanalista apreender o mundo anímico e confundindo-o quanto a uma pseudo evolução analítica. Maldavsky além de identificar o discurso inconsistente, também fala do discurso catártico que funciona como verborréia contínua  que evita qualquer espaço para a intervenção do psicanalista. É um discurso com prevalência de ansiedade resultando em reações coléricas. Há ainda o discurso numérico ou especulador, desinvestindo o mundo psíquico de características qualitativas em detrimento de características quantitativas, no qual o conteúdo simbólico é substituído por números, notas, scores, graus, quantidades, enfim cálculos. Esses três discursos identificados por Maldavsky são fundamentados na falta de qualificação afetiva, podendo haver relatos de afetos não sentidos pelo paciente e também pelo analista.

Ainda com base nos estudos de Maldavsky,  observa-se três traços de caráter comuns nesses pacientes: a viscosidade, o cinismo e a abulia. A viscosidade se manifesta como necessidade de usar o outro para se apegar a um mundo sensível, que ele é incapaz de sentir. Nessa modalidade de traço de caráter o paciente apresenta uma docilidade lamuriosa que tem como objetivo despertar a compaixão do psicanalista, do outro. Algumas vezes, sensibilizam muito o interlocutor. Na sessão de análise tentam estender o fim da sessão com a introdução de novos temas. A viscosidade visa conduzir o psicanalista à forma de relação vivida pelo paciente, que é esterilizante e frustrante despertando impulsos raivosos no psicanalista estimulando uma reação de se livrar do paciente, e dessa forma, repete seu ciclo de abandono, perda e desamparo. A viscosidade ainda poderá surgir no apego ao psicanalista através de constantes elogios ao seu trabalho, sem, no entanto, operar qualquer mudança eficaz no paciente.

O cinismo aparece na forma sarcástica, de pseudo felicidade e de indiferença, com o objetivo de assegurar e ocultar sua infelicidade de viver sem vida e sem futuro, de um viver desprovido de expectativa e esperança.

A abulia é evidenciada no estado de letargia, monotonia e na manutenção permanente do princípio de inércia, resultante da prevalência da pulsão de morte cujo desejo é “nada desejar”. Em determinados momentos do processo analítico, os pacientes abúlicos podem manifestar incontidos ataques de fúria como reação às tentativas do psicanalista de tirá-los desse estado. A abulia pode se transmitir de geração a geração, configurando o que Maldavsky chama de “linhagem abúlica”, resultado de processos vinculares tóxicos e traumáticos.

Para esse tipo de patologia, o psicanalista deve construir uma clínica do possível por tratar-se de pacientes com difícil acesso, um setting possível para cada paciente, visando um trabalho de análise, mantendo uma freqüência nem sempre desejada, mas possível, agendamentos a cada término de sessão e obtendo assim pequenas seqüências de atendimento.

O objetivo desse tipo de análise não se fundamenta no prazer-desprazer de uma erogeneidade representada, mas no princípio primitivo carente de inscrições psíquicas de tensão-alívio de descargas. Assim sendo, o modelo clássico de livre associação não é um recurso útil para esse paciente, ou seja, não cabe aqui incursionar pelo universo do inconsciente buscando novas significações às experiências vividas ou conexões outras que aliviem o sofrimento do paciente que nos procura, mas sim, lançarmo-nos no aquém, na busca de tornar consciente uma percepção, na medida em que não estamos na busca do que foi expulso, excluído, transmutado, mas do que não foi vivenciado, experimentado. É através da construção de experiências, (cindidas na ordem do sensível -cuidar/sem afeto-, portanto, ação sem sentimento, base sobre a qual o desvalimento se assenta), um caminho possível para se construir significação no vinculo analítico.

Cabe ao analista atuar com todos os seus recursos possíveis, ajudando ao paciente a perceber suas experiências, senti-las, vitalizá-las e pensá-las. Desenvolver no paciente sua função auto-observadora como forma de perceber-se e cuidar-se. Deve funcionar como um possível modelo de mãe viva, capaz de suprir os buracos negros deixados pela “mãe morta” de Green, importando-se, facilitando, reanimando, explicando, reconhecendo, contendo, discriminando, inter-relacionando-se e nunca desistindo do paciente.

Conforme observei em escritos anteriores:

O paciente portador de patologias do vazio demanda a ocorrência de uma regressão dentro do setting. A regressão é imprescindível como uma experiência de ligação. Metaforicamente é como ir buscar a criança do outro lado da rua para que, segura, ela aceite atravessá-la. Proporcionar uma relação de confiança e segurança no setting é importante para que o paciente possa regredir e assim recriar situações primárias do seu conflito vivenciadas com a mãe, na etapa de dependência absoluta. Na relação transferencial com o analista surge a oportunidade do trabalho analítico e terapêutico.

O setting deverá servir como útero psicológico para daí o self encontrar os recursos, antes ausentes, que possibilitem o seu desenvolvimento.

 As sessões e o setting precisam rever as fronteiras do modelo clássico transformando o espaço físico  num lugar de intimidade, de acolhimento tal e segurança irrestrita no qual o virtual se faça realidade, ancorando-se na figura do analista, dando continência ao ódio que é o que o paciente traz; ao contrapor com a disponibilidade desse acolhimento e escuta que cria a relação especular, constituindo assim a polaridade ódio-amor sobre a qual se erguerá um possível Sujeito. Com isto, a análise transita da ação interpretativa, elaborativa e  ressignificativa para uma ação inicialmente puramente construtiva e constitutiva.

A atividade interpretativa será bastante limitada ou praticamente ausente no início da análise de um paciente com patologia do desvalimento, uma vez que, não tendo uma subjetividade constituída em si, o paciente sentirá a interpretação como algo invasivo, que o pressiona, causando um desconforto tal que poderá fazê-lo recuar e abandonar a análise.

Conclusão:

Trata-se de um trabalho de longo prazo, com muitos obstáculos a transpor, avanços e recuos, exigindo do psicanalista a construção de um tempo/espaço analítico lento, porém sólido. Flexibilidade para lidar com os recursos analíticos e acuidade para perceber quando for necessário  introduzir novas intervenções e recursos, assim como, capacidade de fazer ver ao paciente que o psicanalista pode suportar seus ataques e indiferença e ainda assim, sobreviver, estar presente,  servindo como referência (objeto real) ao paciente, são habilidades imprescindíveis ao profissional que se propõe a atender esse tipo de patologia.

Enfim, a vitalidade permanente e ativa, e a maleabilidade do psicanalista servirão como motor nesse tipo de atendimento, promovendo lentas e pequenas mudanças, porém significativas no processo do paciente, que não experimentava nenhuma mudança sob o princípio de inércia, resultando numa transição lenta do domínio da pulsão de morte à prevalência da pulsão de vida possibilitando o movimento de alternância das pulsões que movem a existência humana.

Referencias bibliográficas:

 -       COSTA, G. P. et al. A Clínica psicanalítica das psicopatologias contemporâneas. Porto Alegre: Artmed, 2010

-       GREEN, A. Narcisismo de vida, narcisismo de morte. São Paulo: Editora Escuta, 1988

-       FREUD, S. Inibições, sintomas e ansiedade. In: FREUD, S. Um estudo autobiográfico, inibições, sintomas e ansiedade, análise leiga e outros trabalhos (1925-1926) Rio de Janeiro: Editora Imago, 1976.

-       __________. Luto e melancolia. In: Obras completas, v. 14. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1969, p. 287

-       FREUD, S. Projeto para uma psicologia científica (1895, 1950). Obras completas. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1976

-       HORNSTEIN, L. Narcisismo: autoestima, identidade e alteridad. Buenos Aires: Editora Paidós, 2002

-       __________.Intersubjetividad y clínica. Buenos Aires: Editora Paidós, 2003

-       __________. Patologias del desvalimiento. Instituto de Altos Estúdios en Psicologia y Ciências Sociales, UCES. Disponível em:

-       <http://www.uces.edu.ar/institutos/iaepcis/desvalimiento.php> acesso em 21 de Julho de 2011.

-       LIGER, O. Um olhar psicanalítico sobre a contemporaneidade e suas emergências. Rio de Janeiro: Editora Livre Expressão, 2010

-       MAHLER, M. et al. O nascimento psicológico da criança. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1977.

-       MALDAVSKY, D. et al. La intersubjetividad en la clínica psicoanalítica. Buenos Aires: Lugar Editorial. 2007

-       ZIMERMAN, D. E. Manual de técnica psicanalítica: uma revisão. Porto Alegre: Artmed, 2004

O divã além da porta

julho 25, 2011 às 9:00 pm | Publicado em Artigos | 1 Comentário
Tags: , , , , ,

Texto retirado do site do psicanalista Jorge Forbes (CLIQE AQUI PARA VISITAR) e publicado na revista Psiquê.

“Vocês ponham o divã virado para a porta. Se o paciente quiser sair sem olhar para vocês, ele simplesmente se levanta, abre a porta e vai embora”.

Eu estava no começo de meus estudos de psicanálise, mais ou menos na metade do meu curso de medicina. Quem me ensinava a posição correta no divã da sala de análise era um consagrado psicanalista da sociedade local, terno cinza, camisa branca, cara sisuda de conteúdo, com riso comedido. E ele não ficava aí: a esta pérola da posição do móvel se somavam outros ordenamentos práticos para o correto “setting terapêutico”, como assim era chamado.

Preferencialmente não se devia estender a mão ao paciente, o menor contato físico poderia ser desencadeador de fantasias ancestrais perigosíssimas ao tratamento. Por razão semelhante, nada de fotografias na sua sala. Imagine um psicanalista que mostrasse sua família ou seus amigos, quão perturbador poderia ser.  Melhor mesmo é que nem livros tivesse, para não revelar seu gosto literário, ou sua filiação científica. Vestir-se deveria ser sempre o mais discreto possível: homens de gravata, mulheres de saia abaixo do joelho, sempre de cores pálidas. Não atender, ah, isso era fundamental, não atender pessoas da mesma família, para que a transferência não se misturasse nas intricadas redes afetivo-familiares. Aliás, era melhor também não atender ninguém que morasse nas cercanias do consultório ou da casa do analista, pois já imaginou como seria horroroso, disruptivo mesmo, um paciente ver seu analista de bermudas em uma manhã de domingo comprando um jornal na banca da esquina?

Se para ser analista fosse necessário cumprir estas normas que para mim, apesar da pouca idade, me pareciam compor um forte bestialógico, eu ia ter que escolher outra coisa para fazer na vida. Minha crítica não recaía só sobre o cumprimento bobo dessa cartilha, mas especialmente sobre a ideologia que a sustentava. É fácil perceber que tudo está ali pensado para não “perturbar” o paciente. Ora, ora, uma análise foi feita para fazer dormir, ou para acordar? Assim descrita, ela serviria para não incomodar o paciente em seu sintoma, em seu sono irresponsável e inconsciente. Continuando, percebe-se que havia uma tentativa de transformar o analista, sua pessoa, seu corpo, em algo diáfano, invisível, o mais perto possível da famosa “tela em branco” sobre a qual o paciente projetaria suas angústias, na certeza de não vê-las misturadas com a pessoa que o atendia. Triste e capenga visão do que seja a intimidade de uma pessoa: a lombada de seus livros? Suas fotos? Seus amigos? Sua roupa? Não, nada disso, esses traços podem ser indicações, alusões – e quantas vezes falsas! – mas não dizem do cerne de uma pessoa. Aliás, aí está um dos desafios da psicanálise, o de levar a perceber que todas essas características são apoios provisórios da identidade que um analisando deve ir questionando, um a um, em seu trabalho analítico, desembaraçando-se do peso de suas identificações, para poder alcançar o mais íntimo do seu ser, algo de uma estranheza familiar, como diria Freud.

Já estava pronto para fazer outra coisa na vida, como escrevi – pensei em ser gastroenterologista, pois percebia que a maioria das queixas desse sistema se relacionava mais aos sapos comidos, que a pratos mal preparados – quando me deparei na Livraria Francesa da Rua Barão de Itapetininga, em São Paulo, com um livro de um tal de Lacan, que alguém me havia assoprado muito levemente, só dizendo que tinha ouvido falar que ele vinha afirmando coisas novas na psicanálise, lá pela Paris. Abri seu livro com o título provocador de “Écrits”, como se abre livros ao léu nas estantes das livrarias e me deparei com uma frase impactante, no capítulo intitulado “A direção do Tratamento”: “O analista faria melhor situando-se em sua falta-a-ser do que em seu ser”. Claro que naquele momento não entendi muita coisa desse quase aforismo, mas entendi o suficiente para me convencer que havia uma outra psicanálise possível, diferente daquela cheia de rituais de isolamento obsessivos, e que eu poderia continuar em meu desejo de ser psicanalista. Apostei: literalmente embarquei e fui conhecer de perto esse verdadeiro acontecimento Lacan. Não me arrependi, continuo a viagem na certeza sempre mais clara que uma intimidade não se apreende nem nos detalhes de decoração, nem nas vestimentas, mas na ética de se responsabilizar, ou seja, de responder por esse desejo que sempre nos interroga. E que viva a Psicanálise, além de qualquer standard.

“Cisne Negro”: uma aula de introdução à psicanálise

fevereiro 28, 2011 às 6:13 pm | Publicado em Resenhas | 35 Comentários
Tags: , , , , , , , , , ,

Por André Toso

Obs: quem não assistiu ao filme pode ter algumas surpresas estragadas se ler o texto.

Poucos diretores de cinema sofrem tanta influência da psicanálise quanto Darren Aronofsky. Em 2000, nas cenas finais de “Réquiem Para um Sonho”, filmou uma antológica sequencia em que os personagens se encolhem como fetos. No contexto da história, estava clara a influência do pensamento de Freud: o ser humano se origina do inorgânico e, durante toda sua vida, apresenta uma pulsão de retornar ao estado de ser nada. Em busca do equilíbrio biológico perfeito (homeostase), os seres humanos possuem uma atração instintiva pelo útero (o nascer) e pelo túmulo (o morrer). O ser humano luta em vida, de forma inútil, pelo fim de suas tensões internas. Luta por saciar-se.

Onze anos depois de “Réquiem Para um Sonho”, Aronofsky apresenta aos espectadores uma verdadeira aula introdutória à psicanálise no longa “O Cisne Negro”. Poucos filmes possuem referências tão perfeitas e bem amarradas à teoria psicanalítica. Talvez apenas o pesado “O Anticrito”, de Lars Von Trier, seja tão contundente.

A história do filme é simples. Nina (Natalie Portman) é uma bailarina que ganha o papel principal na peça “O Lago dos Cisnes”. Na história, uma princesa que se transforma em um cisne branco e precisa do amor sincero de um príncipe para retornar à vida humana. O príncipe, porém, se enfeitiça pelo Cisne Negro, que apesar de dissimulado apresenta o poder da sedução. O Cisne Branco se suicida diante do fato. É a morte do amor idealizado.

Nina nasceu para fazer o Cisne Branco. Completamente castrada, vive com a mãe, que lhe controla toda a vida. Mora em um quarto cor de rosa, cheio de bichos de pelúcia e demonstra uma pureza completa. Sua ligação com o sexo é infantil e imatura. Sem dúvida, o diretor mostra logo de cara que é nesta relação mãe/filha que mora o segredo do filme.

No roteiro, a figura do pai de Nina nem sequer é mencionado. A impressão é de que ela é propriedade única e exclusiva de sua mãe controladora. A simbiose é total. A falta da figura paterna criou uma relação de dependência doentia entre mãe e filha.  A mãe controla a filha, que aceita de forma masoquista o fato. A mãe de Nina é o personagem mais interessante do filme, pois mostra uma completa inconsciência do mal que faz para a filha. Sádica, alimenta o masoquismo da filha e vice e versa. É exatamente assim que muitas mães aparentemente legais estragam a vida de seus filhos.

Para conseguir interpretar o Cisne Negro, porém, Nina precisa se conectar ao seu lado mais ligado aos instintos. Aqui temos uma clara alusão ao aparelho psíquico montado por Freud. O Cisne Negro é o id, a parte inconsciente e que só se interessa pela satisfação do prazer. O Cisne Branco é o superego, o discurso da mãe que ficou colado à sua imagem. Nina não possui um ego. O superego monstruoso, construído pela mãe sádica, faz dela um ser sem vida, um boneco de ventríloquo que responde aos quereres maternos. Não existe nenhum brilho em sua existência, nenhum desejo. Mas para fazer o Cisne Negro é exatamente com esse lado desconhecido, encoberto pelo superego da mãe, que ela terá que entrar em contato.

Para conseguir enxergar esse lado obscuro, Nina recebe ajuda de seu professor Thomas Leroy (Vincent Cassel). Ele a intimida, a provoca para que o seu lado negro surja das profundezas de sua personalidade (ou a falta dela). Sem a figura paterna do pai, Nina sente ali a presença masculina que pode cortar a relação doentia com a mãe. Seria como a resolução de um Complexo de Édipo tardio, com a interferência de um homem mais velho e experimentado.

Conforme Nina se aproxima de seu lado obscuro, maior a resistência e a culpa. O ódio pela mãe, antes enterrado profundamente, começa a aparecer e se torna algo insuportável. É neste momento que a consciência de Nina se parte ao meio. Descobrimos que a personagem é esquizofrênica. O próprio nome da doença já dá a pista: “esquizo” significa corte ao meio. Nina agora possui duas identidades: o Cisne Branco e o Cisne Negro, o superego e o id. E é neste momento que ela se perde em si mesma, caindo no abismo de um terror sem nome, da falta de significado de seu mundo interno. É uma ruptura tão dolorosa que ela não suporta e é invadida completamente pelas emoções do id: no final do filme, não importam as consequências, ela precisa chegar até o final da apresentação, até o final de sua satisfação.

O diretor busca em todos os momentos mostrar essa dualidade. O branco e o preto aparecem em todos os momentos do filme, em roupas e cenários. A utilização de espelhos nos remete facilmente à teoria lacaniana. Nina sempre tem um espelho à sua frente e é ali que ela se confronta com a figura do outro. O ódio pela mãe, por exemplo, é projetado a todo o momento na figura da colega Lilly (Mila Kunis). Lilly seria o Cisne Negro perfeito, uma mulher atraente e sem culpas. Nina enxerga nela o seu duplo, a sua outra parte. E sente ódio, pois seu superego a pressiona a todo o momento para não entrar em contato com aquele lado obscuro. Ao mesmo tempo, dentro do conflito de seu aparelho psíquico, sente inveja e admiração por Lilly.

Assim como as personagens do clássico “Persona”, de Ingmar Bergman, Nina se confunde com Lilly, enxerga nela a parte do quebra-cabeças que falta para seu mundo interno se completar. No fim, Nina se entrega a essa parte obscura de si mesma, mas a culpa imposta pelo superego é tão grande que lhe resta uma vontade instintiva de voltar à estabilidade orgânica, ao fim das tensões. Entrar em contato com o Cisne Negro foi insuportável para Nina, assim como continuar atuando na vida como o Cisne Branco era um se arrastar diante da existência. Ao se encontrar com as duas partes de si, Nina não conseguiu dominá-las e aceitá-las. Na verdade, ela não estava preparada para isso, pois não tinha ego para suportar, interpretar e simbolizar. Sua mãe  não a libertou, não a deixou crescer. Nina era uma eterna criança que não teve estrutura para entender a natureza humana. Foi vítima de seus próprios conflitos internos.

VEJA O TRAILER DO FILME:

Entrevista com o psicanalista francês Roland Chemama

fevereiro 2, 2011 às 3:06 pm | Publicado em Entrevista | Deixe um comentário
Tags: , , , , , , ,

Um dos livros do psicanalista francês

Fonte: RedePsi

A psicanálise não é um tratamento como tomar um remédio. Ela deve abrir portas, expor outras dimensões da verdade. A tese emerge do livro Elementos lacanianos para uma psicanálise no cotidiano (CMC Editora, 347 páginas, R$ 45,00), que o francês Roland Chemama esteve autografando na capital gaúcha. Na entrevista a seguir, concedida a Robson de Freitas Pereira, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (Appoa), Chemama comenta o exercício da psicanálise na cena contemporânea. Fala de depressão, fetiche, mercantilização dos desejos e contesta a propalada idéia de morte da psicanálise: – O psicanalista representa ainda a possibilidade de uma outra relação com o mundo.

Cultura - No livro Elementos lacanianos para uma psicanálise no cotidiano o sr. discute a relação da clínica psicanalítica com a literatura e a história. É possível que a psicanálise possa se servir dessa relação sem perder sua eficácia clínica?

Roland Chemama – Sim. Na medida em que reconhecemos que o inconsciente é uma expressão da linguagem, fica clara a importância de seguir o modelo pelo qual os escritores trabalharam os grandes eixos da linguagem. Antes de me tornar psicanalista, eu tinha um interesse particular pela literatura, que não se caracterizou como algo exterior à minha orientação psicanalítica. Tentarei ser mais preciso: o poeta nos dá realmente a idéia do funcionamento polissêmico da linguagem. Para ele, uma palavra tem freqüentemente sentidos variados. Acostumar-se com isso aproxima o psicanalista do funcionamento do inconsciente. Para entender o que diz o paciente, temos que cuidar da dimensão polissêmica.

Cultura - Houve um tempo, porém, em que havia um preconceito em relação a isso. Ou seja, o psicanalista poderia se interessar pela poesia ou pela literatura, desde que as encarasse como um hobby. O psicanalista teria que ser, antes de mais nada, um técnico.

Chemama - É importante distinguir duas coisas que, para um psicanalista, são bem diferentes: o saber e a verdade. O mundo contemporâneo nos faz acreditar que o mais importante é a acumulação de saberes. Esse acúmulo, no entanto, faz com que o sujeito ignore a questão de seu desejo. Ao mesmo tempo, a questão da verdade se coloca mais na literatura e na filosofia. Não digo que a literatura seja suficiente para dar ao sujeito a resolução de seus problemas, mas permite pensar alguma coisa que não se reduz ao saber positivo, técnico. Precisamente, a psicanálise não busca a eficácia técnica. A psicanálise não é um tratamento semelhante a tomar ou prescrever um medicamento. Ela deve abrir alguma coisa, expor uma dimensão de verdade e não ser o objeto de um saber.

Cultura – O sr. vem ao Brasil no momento em que elegemos um novo presidente. Em suas primeiras declarações, ele afirmou que “a esperança venceu o medo”. Isso aponta para uma das grandes questões atuais: a insegurança das pessoas em relação ao que poderíamos situar como uma falta simbólica na organização subjetiva e social. O sr. concorda?

Chemama- A transição se faz de tal modo que desmente a idéia de uma falta na relação com a lei, com o simbólico. Quando o presidente atual diz o que ele diz sobre o novo presidente, ele legitima fortemente a transição, pois sentimos que remete a uma posição estabelecida na própria lei. A segunda coisa que eu poderia responder é que, se realmente podemos reconhecer rupturas fortes do laço social nas atitudes de certas camadas sociais em relação a outras, isso não se constitui, atualmente, em um fenômeno particular do Brasil. A questão é muito mais grave, é um problema para o mundo inteiro. Os homens atualmente crêem que toda a relação pode ser pensada como uma relação com um objeto. Como a técnica permite intervir sobre o corpo humano como se ele fosse um objeto, é o homem mesmo que se torna um objeto. A partir disso, se vê que a condição de uma lei, quer dizer, o exercício de uma regulação simbólica, pode ser problemática em todos os países. O que se torna mais preocupante ainda.

Cultura – Neste sentido, será que não estaríamos estabelecendo uma forma de relação perversa com os objetos ou mesmo nas relações sociais?

Chemama – Acho que sim, pois na realidade não se trata de perversão de pessoas particulares. Não é o homem em particular que é perverso. É o sistema mesmo no qual ele está inserido. De que se trata quando falamos em perversão? De um lado, há principalmente essa relação com o objeto que deve fornecer um gozo, sendo o corpo um destes objetos ao qual se pode aceder facilmente. O importante para um sujeito é ele gozar o mais fácil e rapidamente possível. Mas, na minha concepção, também acho que nesses casos há uma outra coisa em jogo: o sujeito não é só um objeto oferecido ao gozo do outro ou um sujeito que goza do outro. Ele geralmente guarda uma referência à lei simbólica, para jogar com essa lei. É neste sentido que os psicanalistas falam de uma clivagem. Sei que esse conceito não faz parte da linguagem cotidiana, mas há conceitos dos quais os psicanalistas têm que se servir como parte do trabalho psicanalítico. A noção da clivagem vem de Freud. Fala do fetichista, dizendo que o objeto-fetiche pode representar uma perda, a idéia de um falo da mãe, na qual acredita a criança. O fetiche representa isso, mas, ao mesmo tempo, não é exatamente isso. Se o fetichista somente acreditasse que a mulher houvesse tido realmente um falo, seria um delírio. Então, no fetichismo há uma clivagem, uma divisão, duas coisas acontecendo simultaneamente: a recusa da castração da mulher e o reconhecimento da castração.

Cultura - Ainda que a psicanálise modifique a noção de patologia propriamente dita, quais as patologias que o sr. encontra com maior freqüência na clínica contemporaneamente?

Chemama - Poderia continuar falando sobre a perversão, sobre a situação do sujeito em relação aos modos de gozo atuais , sobre modos particulares de gozar como a toxicomania, como o alcoolismo, como a pornografia. Já que não encontra uma satisfação completa nestas situações particulares, ele termina por fazer um recolhimento em si mesmo, deixando de agir. Normalmente, um homem ou uma mulher podem agir a partir de algo que é transmitido pelas gerações anteriores, em particular pela
relação com a geração dos pais. Os psicanalistas notam que, para um sujeito expressar seu desejo, é necessário o reconhecimento de um pai real no desejo da mãe.Se essa dimensão não é possível, uma vez que freqüentemente há uma desvalorização do desejo masculino, como no tema do assédio sexual, isso pode se tornar problemático. Hoje essa percepção de um desejo masculino, com muita freqüência visto como ilegal produz efeitos sérios. Neste sentido, penso que a patologia é principalmente uma patologia depressiva. Mais do que uma patologia de sintomas no sentido clássico, como histeria ou neurose obsessiva, estamos diante da patologia da depressão como uma impossibilidade de agir, de desejar.

Cultura - Quais são as particularidades da depressão hoje?

Chemama – A depressão é uma patologia bem conhecida, não é só uma tristeza. É uma coisa que isola o sujeito, que o impede de contatos sociais. O que dá a identidade ao sujeito é o desejo. Assim, quando ele não deseja, perde sua identidade. Há o que os psicanalistas chamam de despersonalização: o sujeito não se reconhece. O que ele é, o que faz aqui ou lá, ele não sabe. Há pessoas que pegam um transporte, viajam a uma cidade qualquer e depois não sabem o que fazem lá.

Cultura – Aqui no Brasil, à parte haver um interesse geral pela psicanálise ela com freqüência tem sua morte decretada em função de grandes “concorrências”, como a psicofarmacologia ( ou neurobiologia) e a religiosidade.

Chemama – Não é a primeira vez que se fala do fim da psicanálise. Realmente, que um problema é a multiplicação excessiva de tratamentos, por exemplo, por medicamentos. O poder da técnica através dos medicamentos ou o poder de discursos que pretendem oferecer um sentido universal cada vez mais se constituem como uma sugestão, um poder estrangeiro ao sujeito. A psicanálise consegue ter um lugar porque o sujeito percebe que os discursos estrangeiros que o comandam não são suficientes. Uma prova disso, embora superficial, mas ainda assim uma prova, é a multiplicação dos filmes cujo personagem principal é um psicanalista, como se o psicanalista, atualmente, na percepção das pessoas, ainda pudesse representar a possibilidade de uma outra relação com o mundo, uma variação do ser, algo diferente. O psicanalista se mantém indispensável.

Os três registros e a subjetividade do sujeito

novembro 18, 2010 às 2:41 pm | Publicado em Curso | Deixe um comentário
Tags: , , , , , , , ,

 

Sou eu ou o Outro?

A terceira e última aula sobre Lacan, ministrada pela psicóloga e psicanalista Alice Beatriz Barreto Izique Bastos, se iniciou com uma explicação sobre os três registros postulados pelo autor: imaginário, simbólico e real. No imaginário, segundo a professora, a criança ainda é um desejo da mãe e se encontra em simbiose com ela. Trata-se de um desejo alienado ao desejo do outro. Portanto, ainda não existe um sujeito. Para a constituição dele é preciso que a criança seja objeto do olhar deste outro. Só depois de se diferenciar e se distanciar é que a criança entra no registro simbólico.

Neste segundo registro, ocorre uma relação entre o inconsciente e a linguagem repleta de duplos sentidos e de equívocos. É isso que formará a singularidade e a subjetividade de cada um de nós. Os significantes que formam o sujeito se articulam entre si em uma cadeia. Para finalizar, o último registro é o real que, diferente do nome, não tem nada de palpável. Para Lacan, o real, no sentido estrito da palavra, é algo sem representação, sem formas, um verdadeiro buraco, uma falta que não cessa. É ausência de sentido, o impensável, que não pode ser simbolizado. Para Lacan, somos marcados pelo discurso do outro e a linguagem é uma cadeia simbólica.

Subjetividade do sujeito

Para o psicanalista francês, o sujeito da psicanálise é aquele descentrado, em que a consciência não forma seu centro. Portanto, Lacan acredita que a consciência é uma ilusão e toda certeza é, na verdade, enganosa. Isso vai de encontro com a teoria freudiana. Freud alterou a famosa frase de Descartes. O “penso, logo existo” foi trocado pelo “penso onde não existo”. Essa idéia de Lacan também casa com o pensamento do filosofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), que em seu livro Além do Bem e do Mal (1886) afirma que a consciência engana o filósofo e que uma filosofia de verdade deve sempre duvidar do próprio pensamento.

O ego como mera ilusão de Lacan vai contra a psicologia do ego norte-americana e o racionalismo. O homem, antes centro de seu próprio universo, não controla sequer seus próprios pensamentos. A pergunta que vale para Lacan é sempre: “Sou eu ou o outro?”. A imagem do outro introjetada é a que constitui o sujeito. Portanto, é apenas no inconsciente que temos a referência de nós mesmos, onde se encontra a verdadeira realidade psíquica do homem.  O pensamento, assim, passa a ser ilusório e o sujeito vai muito além do ego, que em grande parte também é inconsciente.

Por isso, para Lacan, o saber da psicanálise não é absoluto, e sim singular e incompleto. O inconsciente é um saber onde não existe um eu, e é estruturado como uma linguagem: o discurso do outro. Essa estrutura de linguagem incide sobre o sujeito à sua completa revelia. Para Lacan, a palavra é a morte da coisa. O que somos, como diria Chico Buarque na letra de “O Que Será”, é aquilo que não tem nome nem nunca terá. O psicanalista, assim, deve deixar de lado seu suposto saber e ter a humildade de perceber que ele e o paciente , em última instância, sofrem do mesmo sintoma: uma busca por uma completude imaginária que nunca poderão alcançar.

Para ler a primeira aula de Alice CLIQUE AQUI

Para ler a segunda aula de Alice CLIQUE AQUI

Lacan e o Estádio do Espelho

novembro 11, 2010 às 1:29 pm | Publicado em Notícias | 3 Comentários
Tags: , , , , , , ,

Na noite desta quarta-feira (10/11/2010), em continuidade ao ciclo de aulas sobre Lacan, a psicanalista Alice Beatriz Barreto Izique Bastos explicou o Estádio do Espelho. Segundo ela, essa teoria foi criada entre os anos de 1938 e 1940, quando Lacan concluiu que o olhar do outro é base da constituição do sujeito.  O bebê, portanto, projeta a imagem que o outro deu a ele – normalmente familiares ou pessoas próximas. Para a criação desse princípio, Lacan se subsidiou no médico e psicólogo francês Henri Wallon (1879-1962), para quem o reconhecimento da imagem da criança já representa a existência de um eu.

Se em Wallon o espelho possui um papel concreto, Lacan prefere seguir por um caminho mais subjetivo. Considera que a imagem especular do bebê tem um caráter ilusório e falso, contornado por desejos e ideais alheios. Mesmo assim, por ainda não conseguir se distinguir do outro, a criança assume a imagem como se fosse sua. O sujeito se torna uma unidade, porém virtual e alienada. Sobre isso, Lacan afirmou: “o corpo despedaçado encontra sua unidade na imagem do outro, que é a sua própria imagem antecipada”. Ocorre, então, uma confusão entre o eu e o outro, um conflito que constituíra uma etapa fundamental para a identificação primordial do sujeito.

O médico e psicólogo Henry Wallon

É exatamente por essa dimensão imaginária, por essa influência do olhar do outro, que a conquista da identidade se processa. É esse momento que define a organização estrutural do sujeito e toda sua subjetividade. A singularidade de cada um se constrói a partir desse olhar do outro, que formata o sujeito e o desloca de uma posição imaginária para uma posição simbólica. Em Lacan, essa passagem de representação de si também passa pela linguagem, decisiva para a concretização identificatória.

Complexo de Édipo

De acordo com Alice, a criança se identifica com o objeto do desejo da mãe, para em seguida perceber que essa mãe possui outro objeto de desejo, que seria o pai. Dessa forma, a criança entra no registro de castração e ocorre uma interdição de seu impulso: uma frustração. A renúncia ao objeto perdido resulta no fim da completude com a mãe. A castração simbólica separa a criança de uma relação dual e imaginária com o outro, tendo acesso ao registro simbólico da linguagem. É exatamente a resolução do Édipo que confere uma singularidade ao sujeito. Ao interiorizar a lei, o sujeito se insere na cultura e na linguagem.

Para ler sobre a primeira aula de Alice sobre Lacan CLIQUE AQUI

Para saber um pouco mais sobre Wallon CLIQUE AQUI

 

Um pouco de Lacan

novembro 4, 2010 às 3:39 pm | Publicado em Curso | 4 Comentários
Tags: , , , , , , ,

A psicóloga e psicanalista Alice Beatriz Barreto Izique Bastos iniciou esta semana na Sociedade Paulista de Psicanálise um ciclo de três aulas sobre Lacan. Com mestrado pela PUC e doutorado pela USP, Alice se especializou na teoria lacaniana e, inclusive, lançou um livro chamado “A Construção da Pessoa em Wallon e a Constituição do Sujeito em Lacan”, pela editora Vozes. Nesta primeira aula, a psicanalista falou um pouco da trajetória de Lacan, do manejo clínico do francês e derrubou alguns mitos construídos em torno de um pensador que se tornou um verdadeiro mito.

A influência de Lacan na cultura francesa, segundo Alice, ocorreu principalmente durante a década de 1970, uma fase em que o mundo borbulhava pela liberdade sexual, a explosão do consumo de drogas e as revoluções da contracultura. Diante disso, Lacan se relacionou com filósofos, artistas surrealistas, músicos e intelectuais. Essa troca influenciou sobremaneira sua visão psicanalítica. Por ser psiquiatra, psicanalista e filósofo, Lacan cumpriu um papel de amplo pensador.

Seu grande objetivo era um retorno e uma releitura da obra de Freud para trazer de novo seu pensamento para o centro das discussões da intelectualidade francesa. Após duas guerras mundiais, o pensamento freudiano perdera força e o psicanalista francês percebeu que era urgente revisitar a obra do mestre. Seu retorno a Freud, porém, ganhou o reforço de sua visão da linguística, da obra de Levi-Strauss e da filosofia de Heidegger.

Foi então que algumas de suas teorias causaram polêmica na International Psycoanalytical Association (IPA). Entre elas, o estádio do espelho, em que Lacan diz que a matriz constitutiva do ego é ilusória. Ao afirmar que o ego é uma instância ilusória e não o centro da personalidade psíquica do homem, Lacan se confrontou com a psicologia do ego norte-americana, que naquele período ganhava força. Além disso, em seu famoso Discurso de Roma, o psicanalista afirmou que o inconsciente está estruturado em uma linguagem própria de significantes. Lacan, em 1964, saiu da vice-presidência da IPA e fundou a Sociedade Francesa de Psicanálise (SFP).

Essa peregrinação por diferentes instituições marcaria a vida de Lacan. Sua proposta era de total rompimento com o establishment e com as regras rígidas da IPA. Para Lacan, o analista não se autoriza senão por ele mesmo. Segundo o pensador francês, o psicanalista deve ter o compromisso de saber quando está preparado. Com seu conceito de Sujeito Suposto Saber, o papel do analista e do analisando se equivalem, sem que o psicanalista precise ser um mestre que imponha os caminhos. O analisando é o único que pode se conhecer e mudar sua realidade.

Sua segunda excomunhão, como ele mesmo chamava, ocorreu em 1980, quando saiu da SFP e fundou a Escola da Causa Freudiana. Mais uma vez, Lacan se desligava das amarras institucionais e impunha como primordial seu próprio pensamento, independente de seguidores. Os lacanianos, que começavam a aparecer, não o fascinavam: Lacan continuava se dizendo freudiano, com a intenção de não criar um movimento de fiéis seguidores. Ele buscava a verdade em sua teoria, sem institucionalizá-la ou engessá-la. Para ele, a análise confronta o sujeito com a sua verdade, pela qual ele é constituído.

Blog no WordPress.com. | O tema Pool.
Entradas e comentários feeds.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 50 outros seguidores